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Ainda dá tempo

Luiz Carlos Merten

23 de dezembro de 2013 | 23h35

Fui ver hoje Artigas e, embora tenha credencial do Arteplex, confesso que paguei pelo ingresso, o que me ocorre bastante, quando o filme é brasileiro ou tem ligações com o País. Achei que não haveria muita gente – éramos quatro – e que seria obsceno infringir ao filme de César Charlone as benesses que me concede o Ademar Oliveira, no Arteplex e no Espaço. Com a produção estrangeira, não tenho tanto prurido, confesso. Diante do que vi, e achei bem interessante, resolvi pesquisar para saber o que os coleguinhas haviam achado. Achei bem pouca coisa e algumas bem absurdas. Os caras escrevem as maiores besteiras, mas um é doutor sei lá por qual universidade, o outro pertence  a não sei quantas associações de críticos. O horror, o horror. Achei sólido o partido de Charlone, que bebeu na fonte de Jorge Luís Borges, o grande. O tema do herói e do traidor. Um espião espanhol é cooptado/forçado a se infiltrar nas hordas de José Artigas. Ele chega cheio de razões e preconceitos, mas termina se conscientizando de que Artigas tem mesmo um  projeto libertário. Só que é desmascarado – pelos que o contrataram – justamente no momento em que toma consciência do que Artigas representa. O Libertador não é um, mas múltiplo. Representa todas as etnias que forjaram a identidade da Banda Oriental. E tudo isso é contado em função de um quadro encomendado pelo regime que governa o Uruguai, no fim do século 19, O governante de plantão quer dar um cara a Artigas para manipular a chamada ‘opinião pública’. A história oficial, que Charlone subverte, mostrando o momento em que o traidor se transforma, mas só nós, o público, sabemos disso. Ah, o mistério de Rosebud. Achei o filme bem legal e o duelo de repentistas me pareceu o máximo, o ponto alto da mise-en-scène de Charlone. Lamentei não ter visto o filme antes, para tentar interferir, com meus elogios, na distribuição. Mas vejam, que ainda dá tempo.

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