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Ainda dá tempo de recuperar John Waters, e Divine

Luiz Carlos Merten

20 de agosto de 2016 | 09h54

Tive ontem um dia estressante, cheio de filmes, entrevistas, matérias. Normal – o problema é que, emendando uma coisa na outra, não tive tempo de voltar ao blog para falar sobre Divine, como havia prometido. Divine! Nos anos 1960 e 70, o diretor mais punk dos EUA era um carinha efeminado, sempre de paletó xadrez, gravata borboleta e com aquele bigode fino, que formava dupla com uma travesti de quase 200 quilos – muito mais de 100, com certeza -, a quem submetia a abusos inomináveis. Era Divine. Foi assim que John Waters, pois é dele que falo, se tornou objeto de um culto. Depois, quando os jovens que o idolatravam – como transgressor – tomaram o poder em Hollywood, Waters foi cooptado e começou a fazer filmes nos estúdios, ‘dentro’ do sistema. Não são os melhores, mas ainda contêm provocações – a mãe assassina de Mamãe É de Morte, os tarados que se masturbam nos cinemas pornôs de Cecil B. Demente. Começou ontem no Belas Artes, na Sala Drive-in, um ciclo dedicado a John Waters que deve prosseguir todas as sextas-feiras, por mais quatro semanas, exibindo um único filme do autor, numa única sessão, às 20h30. O primeiro foi justamente o mais famoso de todos, Pink Flamingos, em que Divine disputa com o casal Marble o título de ‘filthiest human being in the world’, a pessoa mais suja do mundo. Os Marble, Ray e Connie, sequestram mulheres que são violadas por seu mordomo. Elas engravidam e eles vendem os bebês no mercado negro. Fora isso, os Marble investem em pornografia, vendem hereoína – gente finíssima. Babs/Divine é só uma puta e assassina, mas vence o concurso por K.O., pelo simples fato de que mata os concorrentes, mas Waterts, para não deixar dúvida quão ‘filthiest’ ela é, faz com que Divine coma cocô de cachorro diante da câmera. Sem corte – direto da bundinha do totó para a boca de Divine, ela mastiga e abre bem para mostrar que, argh!, engoliu. O filme é de 1972 e o diretor e sua estrela, a quem Jean Tulard chama de ‘fêmea monstruosa’ no Dicionário de Cinema, foram chamados de ‘outrageous’, ‘infamous’, por aí. Escatologia pura, e segundo Waters era o que a ‘América’ merecia, o que a expressava, nos anos de escalada no Vietnã. Pink Flamingos já era, mas ainda será possível ver, pela ordem, e sempre às sextas, 20h30, Cry-Baby (dia 26), Clube dos Pervertidos (dia 2), Desperate Living (9) e Polyester (16). Em, seu Guide for the Film Fanatic, Danny Peary considera Desperate Living, de 1977, o melhor e mais radical filme de Waters e o próprio John, em seu livro Shock Values, o define como um melodrama lésbico sobre revolução e um conto de fadas mórbido lidando com angústia mental, inveja do pênis e corrupção política. Divine está fora e, de cara, Mink Stole chega a sua casa, no surbúrbio de Baltimore, depois de uma temporada no hospício e à beira de outro ataque de nervos. (Waters foi, com certeza, o mentor da fase da ‘movida’ de Pedro Almodóvar.) Mink e sua governanta matam o marido dela quando Jean Hill, a atriz que faz o papel, sufoca o sujeito sentando-se, com sua bunda gorda, na cara dele. As duas fogem para uma cidade controlada por lésbicas e idiotas, mas não por lésbicas idiotas. A chefona é a cruel Edith Massey, que tem retratos de Hitler, Charles Manson e Idi Amin no quarto, e por aí vai a festa, não sem que as fugitivas topem antes com um policial de motocicleta que rouba as roupas de baixo das duas, e imediatamente as veste. Divine volta em Polyester e é a melhor coisa do filme sobre uma dona de casa suburbana em Baltimore (sempre a cidade em que Waters nasceu). O marido tem um cinema pornô, o casal de filhos é abominável e ela fica amante de Tab Hunter, um gayzinho assombrosamente belo que foi galã por volta de 1960 e, como Rock Hudson, teve de viver quase toda a vida no armário. Hunter, ao contrário do marido, tem um cinema de arte, que exibe – a melhor piada – uma trilogia de Marguerite Duras, naturalmente que filmada por Waters e com acréscimos de seu particular universo. Polyester é de 1981, quando Waters já filmava com mais recursos. Danny Peary lamenta que a espontaneidade filme B tenha se diluído numa espécie de ‘manual de perversões’ made in Hollywood. Mas ninguém conseguia enquadrar Divine, nem seu ‘inventor’. Ela morreu em 1988, aos 43 anos. E nasceu Harris Glenn Milstead em Baltimore (onde mais?). Vale a pena procurar na rede as fotos de Milstead e sua persona, Divine, como vale a pena revisar a obra de John Waters, mesmo com risco de desapontamento, no Belas Artes. Tem gente, drags e trans, que acha que está inventando o que Divine já fazia antes que elas nascessem.

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