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Ainda a polêmica de Nascimento de Uma Nação

Luiz Carlos Merten

30 Janeiro 2017 | 00h47

Cá estou, de volta. Há tempos não tinha um voo tão turbulento como o da Latam, na volta de BH. Jesus! Só faltava a Margo Channing para pedir que a gente amarrasse os cintos de segurança. Houve gritaria, crianças choraram, mas no final deu tudo certo. Ainda bem! Almocei, fui ao jornal fazer a matéria do encerramento de Tiradentes, fui à Paulista em busca de novas revistas de cinema, e havia várias (Cineaste, Sight & Sound, Empire), jantei e agora estou em casa. Cineaste estampa Isabelle Huppert na capa e traz uma entrevista que li de um jato com o diretor de Elle. Paul Verhoeven diz que não é provocador, e só isso já vale como uma provocação. E a revista publica dentro outra foto de Isabelle com o gato, na cena em que Michèle, sua personagem, repreende o felino por não havê-la defendido durante o estupro. A revista traz também análises do cinema de Chantal Akerman, uma longa entrevistas com Oliver Stone (por Snowden) e outra análise, certamente polêmica, sobre como a acusação de estupro contra o diretor Nate Parker destruiu a carreira de um filme importante como Nascimento de Uma Nação. Ainda sobre Nat Turner, que liderou uma revolta de escravos contra seus amos, no século 19, Cineaste relembra a tentativa malograda de Norman Jewison de dar sequência a seu No Calor da Noite com outro filme sobre as explosivas relações entre brancos e negros – em plena ‘América’ da luta por direitos civis -, e que seria justamente a adaptação de As Confissões de Nat Turner, de William Styron. Confesso que não tinha noção da polêmica causada, na época, pelo livro de Styron, um branco que foi acusado de adulterar a história de Nat, dando conotação sexual à sua luta. O Nat de Styron queria ser branco para realizar seu desejo por mulheres brancas. Impossibilitado, fez uma rebelião para violentá-las. Confesso que li o livro há muito tempo e não guardei dele esse foco simplificado, mas, de qualquer maneira, fiquei chapado com o relato das batalhas verbais do ator Ossie Davis, como porta-voz da Black Anti-Difamation Association, com Styron. A exemplo dos Dez de Hollywood, que resistiram, ao macarthismo, dez escritores negros uniram-se para interpelar Styron, e o caso evoluiu, e complicou-se, até que o produtor David Wolper e a empresa Fox cancelaram o projeto. Em nenhum momento o texto de Cineaste coloca o assunto dessa maneira, mas, lendo a reportagem, tive a sensação de que foi, há quase 50 anos, a origem do politicamente correto em Hollywood. E a revista ainda traz a review (crítica) de Aquarius e, na parte de home video, resgata o western Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann, a sátira política de Stanley Kubrick, Doutor Fantástico, e a mais ‘shakespeariana’ das incursões de Orson Welles pelo universo do bardo, Chimes at Midnight. Já é tarde, preciso dormir,mas depois disso só me resta acrescentar que Adam Driver é a capa de Sight & Sound de dezembro, pelo Paterson de Jim Jarmusch. E, a propósito, como Driver nem Jarmusch estão no Oscar? Fui pesquisar e o filme estreou nos EUA, simultameamente com a Alemanha, em outubro. Academia de m…