As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Ainda a discussão sobre conversar no escurinho do cinema

Luiz Carlos Merten

06 de novembro de 2016 | 13h21

Sei que às vezes exagero – pocilga, porcos… Mas não tem nada que me irrite mais do que esse comportamento sem noção de quem acha que fazer dez coisas ao mesmo tempo no cinema é perfeitamente natural. Quem fica com um olho na tela e outro no celular, ou na pipoca, ou no refrigerante, ou no vizinho ou com quem conversa, e acha que tudo bem porque está ‘entendendo’, na verdade perde uma coisa essencial, chamada fruição. O que tem para entender na genial suite An American in Paris, de Sinfonia de Paris, de Vincente Minnelli? Pegou mal, porque esse não é um bom exemplo. Minelli, quem? O pai da Liza. Ah, agora, sim. Mas é por aí. O público acha que entende, e basta. Mas não. Hoje em deia, os novos teóricos da comunicação dizem que o recado tem de ser dado logo, porque as pessoas não demoram mais em nada do que estão fazendo. Você, por exemplo, já deve ter desertado do post, se é que entrou, porque o sistema exclui os que, como eu, não se valem de imagem para atrair a massa. Podia botar uma ‘vajaina’ para incrementar o post. Ou um garnizé… Mas resisto, leia quem quiser. Vi ontem, nem sei onde, uma chamada – Isis Valverde gosta de dormir nua. Eu também, e não fico contando. Há quase 60 anos, quando nem a mãe da Isis devia ser nascida e Marilyn Monroe disse isso, era provocação, convite à putaria, e era uma fase de grande repressão, não a permissividade de hoje. E a Marilyn, quando dormia nua, usava as famosas gotinhas de Chanel n.º 5, que Federico Fellini imortalizou na fala de Sílvia/Anita Ekberg, em A Doce Vida. Que perfume a Isis usa? Ou é o natural da sua intimidade? A coisa está ficando quente… Paulo Francis, um grande reacionário, mas gênio, advertia. No Diário da Corte, vivia dizendo – o que nos salva é a URSS. Como assim? O cara, que certamente não era comunista, sabia que, sem a URSS, não haveria limite ao poderio dos EUA. O Muro de Berlim caiu, o comunismo foi junto e hoje quem manda é o deus mercado. Liberdade? Donald Trump, se for eleito, é com o discurso da segurança. Foda-se a liberdade. Afinal, é só uma calça azul e desbotada. Quem criou o slogan pensava num estilo de vida. Hoje a liberdade não é nem de escolher no mercado, porque vivemos a era do consumo direcionado. Não estou chorando nenhum leite derramado, só exercendo meu direito de pensar, refletir. O mundo não ficou nem um pouco melhor com as pessoas conversando e comendo pipoca no cinema. E ficar no celular, que não tenho – mas uso os de amigos para me comunicar -, é coisa de otário. É produzir conteúdo de graça para que outros lucrem – e lucram muito. Aonde me levou essa conversa, hein?Vão ver Jovens, Loucos e Mais Rebeldes. Essa discussão da competitividade está no filme. Já estava em 1980. A pergunta que não quer calar – Jake, o garoto, é o próprio diretor Richard Linklater? Salvou-o uma aspirante a atriz na sua juventude? Grande guria! Nós, cinéfilos, só temos de lhe agradecer.