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Ainda a beleza de Praia do Futuro

Luiz Carlos Merten

07 de maio de 2014 | 09h02

Passam-se apenas oito ou dez anos em Praia do Futuro, entre o momento em que Donato (Wagner Moura) abandona a família no Brasil e o irmão, Ayrton (Jesuíta Barbosa), o reencontra em Berlim. Aliás, revendo ontem as imagens do filme de Karim Ainouz dei-me conta de como amo aquela cidade. Dez anos em termos de (grande) história não representam nada, por mais decisivas que sejam – tenham sido – certas décadas, mas em termos de uma vida representam muito. Subentendida na agressão verbal de Ayrton – é aqui que você se esconde? -, existe outra pergunta. Fugiu pra poder dar o c…? Por mais que Ayrton idolatrasse o irmão, para ele o Acquaman, sua geração atravessou mudanças comportamentais e hoje convive com elas, mesmo que eventualmente não sejam totalmente aceitas, de uma maneira muito mais libertária que antes. Às vezes, quando vou ao Gay, ops, Frei Caneca, me irritam tantos pares de mãos dadas, aos beijos, porque me parece que reproduzem modelos heteros de relações, mas depois eu digo comigo mesmo – e por que não? Vira um gesto político, mesmo que no rumo de um certo conservadorismo, não sei, não consigo pensar direito. Mas a verdade é que, apesar do pastor – aquele! -, as coisas têm mudado. E o cinema também. Talvez exagere, mas Praia do Futuro já entrou para o meu panteão. Gosto de muitos filmes, mas se alguém, agora, neste momento, me perguntasse qual o melhor filme brasileiro desde a retomada, eu provavelmente manteria o Cinema, Aspirinas e Urubus no primeiro posto, mas logo depois, e brigando pela dianteira, viria o Praia do Futuro. O interessante, para mim, é que Marcelo Gomes e Karim são bróders. Parceiros, colaboradores. Até já codirigiram juntos (Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo). E aí eu penso em O Estranho no Lago, de Alain Guiraudie, e em E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto, que acaba de vencer o Cine PE, na categoria documentário (e foi o melhor filme de todo o evento). Para lá de abordarem questões gays, são grandes filmes que redefinem conceitos éticos, estéticos. Representam passos gigantescos desde que Bernardo Bertolucci introduziu a manteiga como lubrificante sexual em Último Tango em Paris e Nagisa Oshima transformou o sexo explícito em matéria de dramaturgia, em O Império dos Sentidos. Wagner talvez tenha reagido ontem, na coletiva, desproporcionalmente à pergunta (sobre como se havia preparado para as cenas de sexo com Clemens Shick). Defendia a privacidade, e respeito isso, mas o gesto político não é só mostrar um cara comendo outro, é que esse cara, ou o ator que o interpreta, seja o Capitão Nascimento, e ele pode passar de uma coisa a outra com uma profunda compreensão da natureza humana, vestindo a pele de cada um desses personagens para torná-los críveis, verdadeiros, intensos. Contra todas as aparências, Wagner disse que Donato é o personagem mais próximo de Nascimento que já fez. Pensem nisso. Continuo insistindo que a cenas do reencontro de Ayrton e Donato, na saída do elevador, é a coisa mais genial que surgiu nos últimos tempos no cinema brasileiro, talvez no mundial, e se aquilo é a concretização do polêmico método de Fátima Toledo, então tiro meu chapéu para ela. Atores muitas vezes se recusam a aceitar o método de Fátima porque ela o aplica a não atores para arrancar pedaços de vida, não interpretações. Mas quando atores de verdade, e com técnica, e sentimento, como Wagner e Jesuíta, se entregam, meu Deus!, é de tirar o fôlego. Para mim, a maior cena do cinema não é a da escadaria de Odessa em O Encouraçado Potemkin nem a abertura de Cidadão Kane, quando Orson Welles propõe o enigma de Rosebud. Minhas grandes cenas possuem um recorte mais intimista, são interiorizadas. John Wayne abrindo os braços para acolher Natalie Wood em Rastros de Ódio e, em Rocco, a cena do parque, em que Nadia (Annie Girardot) cospe seu ódio por Simone (Renato Salvatori), que matou seu sonho. Ela diz que nada mais importa, abre os braços em cruz para receber as facadas, mas antes disso tem um breve momento em que volta as costas ao ex-amante, e aquilo é tudo. Aquela tristeza, aquela desolação numa aurora que não traz redenção alguma. Wagner, Jesuíta. Posso começar a procurar oito títulos – ou sete, pois há Getúlio – para compor minha lista de dez mais do ano. Miyazaki (Vidas ao Vento) e Praia já são cativos. E se Adhemar Oliveira, ou a Sílvia Cruz, da Vitrine, o Jean-Thomas, da Imovision, trouxerem o E agora?, a busca ficará cada vez mais reduzida. O essencial já está à mão. E ao contrário do que dizia Saint-Exupéry, é visível aos olhos (embora, dentro dos filmes, seja invisível, como ele sustentava).

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