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Agora, sim. Almodóvar!

Luiz Carlos Merten

30 de março de 2020 | 12h50

Três vezes Pedro Almodóvar na TV paga, no fim da tarde e na noite de ontem. O que une A Lei do Desejo, de 1986, Má Educação, de 2003, e Dor e Glória, do ano passado, é o tema da homossexualidade. Os dois primeiros são thrillers hitchcockianos, e é interessante como a música de ambos bebe na fonte do compositor do mestre do suspense, Bernard Herrmann. Em todos, o personagem central é um criador – diretor de cinema (e teatro). Eusebio Poncela, no primeiro, é o homem que não sabe amar. Antonio Banderas apaixona-se por ele, mas é um amor possessivo. Amar Foi Minha Ruína – como Gene Tierney no melodrama noir de John M. Stahl, de 1945, Antonio Benitez/Banderas chegará ao assassinato. O segundo é ainda mais complicado – um diretor e o antigo colega de internato religioso que ressurge na vida dele. De novo a lei do desejo – ambos tiveram uma historinha quando crianças, e o amigo sofreu abuso do padre diretor da escola. A partir daí Almodóvar soma – troca de identidade, travestismo, assassinato. Os filmes são fortes, possuem qualidades, mas, para mim, nenhum deles é grande e são ambos preparatórios para A Pele Que Habito, de 2011. Banderas, de novo, faz cirurgião que credita a morte da filha ao namorado na garota. Ele sequestra o cara, submete-o a uma operação de mudança de sexo – e se apaixona pela nova mulher. (Carmem Maura já faz uma mulher trans em A Lei do Desejo. Mudou de sexo por amor ao pai, com quem tinha uma ligação incestuosa. Trocou de sexo e o amante a abandonou. Quem mais, senão Almodóvar, para criar essas histórias?) O próprio cinema é sempre fonte de inspiração para Pedro. Em Má Educação, Berenguer, a nova identidade do Padre Manolo, e Gael García Bernal, unidos no crime, vão ao cinema, um ciclo de filmes noir, e na saída o primeiro comenta – “É a nossa história.” A Pele Que Habito também tem sua referência, e é um filme do francês Georges Franju, autor que resiste a toda classificação. Les Yeux sans Visage, de 1960. Um médico que mata e escalpela suas vítimas, em busca da pele perfeita para tentar salvar a vida da filha, que sofre de uma doença degenerativa. Fantástico – o horror, o horror. E chegamos a Dor e Glória. Almodóvar tem filmes de que gosto muito e que ajudaram a colocá-lo no meu panteão. Carne Trêmula, de 1997, Tudo Sobre Minha Mãe, de 1999. Meu novo favorito é Dor e Glória, que dialoga muito bem com os três filmes de ontem. Banderas, seu maior papel?, faz um diretor que cumpre uma espécie de isolamento. O filme abre-se com ele no fundo da piscina (uma cena de Má Educação; Benjamin Braddock/Dustin Hoffman em A Primeira Noite de Um Homem – The Sound of Silence). A dor física o impede de interagir nos sets, mas a vida vem – uma homenagem na Cinemateca – e ele se defronta com o próprio passado. Já escrevi, no jornal, que, a despeito da polarização entre Parasita e 1917 no Oscar, o grande filme deste ano no prêmio, para mim, foi o de Almodóvar, que não levou nada. Gosto demais do filme, do elenco, mas Dor e Glória, muito especialmente, tem duas cenas que já entraram para a minha antologia cinematográfica. O reencontro de Salvador Mallo, o diretor, Banderas, com seu antigo amante, o grande amor?, Federico/Leonardo Sbaraglia, que termina com o beijo. E a cena de Salvador menino, a descoberta da homossexualidade quando ele tem um desfalecimento ao ver o pedreiro nu na sala de sua casa. El Primer Deseo, o primeiro desejo. No início do post, disse que a homossexualidade liga os três filmes apresentados ontem, pela TV paga. Não exatamente. O que faz a liga é o desejo. Que a pulsão seja homossexual faz parte da arte – da vida.

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