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Agora, que faço eu da vida…? Lisbela, Cacá e os clássicos

Luiz Carlos Merten

17 de maio de 2020 | 15h44

Meu último post foi há cinco dias e não tive nenhumas notícia de Sergio Leeman. Pode parecer que, em casa, de quarentena, não tenha muito o que fazer, mas consegui criar uma rotina e tem sido muito positiva para o meu equilíbrio merntal no isolamento. Tenho disciplina para o trabalho, tenho meus horários de lazer, de ver TV, de ler. O pior é a limpeza. Lavar lopuca, roupa, passar psno no chão. Socorro! Passar a roupa, nunca. No domingo passado, numa fase de escrever sobre Frank Capra no blog, revi Campo dos Sonhos na TV paga. Kevin Costner dirigido por Phil Alden Robindon na fase ascendente de sua carreira, pré-Oscar. O good guy. A voz – ‘É só construir o campo que eles virão.’ Eles – o time dos sonhos de beisebol, o reencontro com o pai. O filme mais ‘capriano’ que Capra, morto em 1991, não realizou. O interessante é que o filme passou à tarde e eu havia combinado de falar com Cacá Diegues pelo telefone. O timing foi perfeito. O filme terminou, e o aperto de mãos na despedida de pai e filho é pungente, o telefone tocou. Fiquei um tempão conversando com Cacá, que, na terça, 19, faz 80 anos. Há tempos já está pronto meu texto da série Clássico do dia sobre Bye Bye Brasil, que a Eliana Souza, uma de minhas editoras, vai subir na terça mesmo. Hesitei entre Chuvas de Verão, meu Cacá preferido – a cena de Gracinda Freire – e optei por Bye Bye, por tudo o que representa. Um adeus ao passado e um bem-vindo ao futuro. Acho que estamos de novo nesse momento único, podendo superar uma fase e recomeçar – mas não sei se vamos, como nação, conseguir. O obscurantismo é muito forte. Não posso deixar de pensar em Cabaret, o musical de Bob Fosse. O aristocrata Maximilian Von Heune, Helmut Griem, explicando que o apoio aos nazistas é coisa temporária, só para se livrar dos comunistas, depois a gente se livra deles – os nacional-socialistas. Todo mundo sabe como terminou essa história. No Brasil, a prioridade, para muitos, era se livrar do PT. Valia tudo. Deu no que deu. Está na capa da Carta desta semana – E aí vêm eles. Os de coturno. O Brasil se encaminha para superar os EUA nos números da Covid 19, se é que já não superou. A estratégia é mascarar os números, deixando-os mais baixos sem fazer os testes massivos. Parabéns! Em alguma coisa, sob essa gente horrível, vamos ser os primeiros, mas precisava ser na Covid? Ontem, na Globo, após a desgraceira do santo dia, no jornal Hoje, emendei com o novo horário de cinema. Agora, que faço eu da vida sem você? Lisbela e o Prisioneiro. Guel Arraes, o diálogo de Guel, Jorge Furtado e Pedro Cardoso, Caetano na trilha, as interpretações cheias de graça de Débora Falabella, Selton Mello, Marco Nanini e todo o elenco. Numa cena, Leleu, querendo explicar por que vai ficar com Lisbela – é o amor! -, diz a Inaura que ela é um muilerãso, e é. Espero nãoestar me enganasnmfo, mas Guel era casado com Virginia Cavendish, na época. Deu-lhe aquele presentão. Quando Leleu despede-se dela, Inaura puxa do batom, pinta-se para matar e, com a voz de Elsa Soares ao fundo (é ela, não?), vai à luta, porque é guerreira e nada nem ninguém poderá detê-la. Sempre gostei muito de Lisbela, do seu universo de fasntasia, e ontem, nessa m… toda, vi o filme como quem reza. Uma forma de oração. O machismo, a violência passados a limpo. A brasilidade. As ferramentas do drama, da comédia, da farsa. Lembtrei-me muito das montagens ‘populares’ de Gabriel Villela. Detectei um ruído. Numa cena da cadeia, quando Leleu está falando com o Cabo Citonho (Tadeu Mello), tem um erro de continuidade, ou assim me pareceu. Um plano que não deveria estar ali. Espero rever Lisbela para conferir. O cinema tem sido meu aliado nesse transe. Sabia que terminaria escrevendo sobre São Bernardo na série Clássico do fdia. Estava meio traumatizado, porque queria muito fazer um belo texto sobre Cacá, o texto que acho que ele merece, falo da entrevista. Demorei dias, acho que, inconscientemente, gestando. Na quinta, 14, acordei e escrevi de um jato. Mais de 7 mil caracteres. Fui salvar e… O texto sumiu. Não houve jeito de resgatá-lo. Fiz o material do fia e, com o maior cuidado, respirando fundo para não perder de novo, fiz outro texto sobre Cacá. Não refiz o primeiro, que tinha a resistência de Cacá às patrulhas ideológicas como espinha dorsal. O texto tomou outro formato, acho que nem tem as tais patrulhas. Mas uma coisa que escrevi sobre Cacá me levou a Leon Hirszman. Na sexta à noite, decidi que era tempo de encarar São Bernardo, o filme. Salvei, e guardei. Ontem, sábado, retomei o texto pela manhã. Não consigo ler sem mudar, reescrevi, dei como pronto e enviei. Uma coisa que escrevi me levou, irresistivelmente, a Se…, de Lindsay Anderson, para os Clássicos do dia. E, ao escrever sobre o zero de comportamento de Lindsay, uma frase do texto me levou a The Molly Maguires, de Martin Ritt, com roteiro e produção do blacklisted (como o diretor) Walter Bernstein. Ver-Te-Ei no Inferno! Um dos filmes da minha vida. O plano-sequência do início, os planos-sequências de Leon. Tem sido assim, uma coisa levando à outra. Isso vai passar. Só não podemos deixar de ser solidários.

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