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Agnès Varda, artista

Luiz Carlos Merten

29 de março de 2019 | 10h19

Nem sei se o post anterior faz sentido, mas o estava redigindo quando chegou o físio, o Carlos. E na sequência tocou o telefone. Era o Bira, Ubiratan Brasil, meu editor, dando conta de que morreu Agnès Varda. Para seus 90 anos, ela parecia bem em Berlim, onde foi homenageada, em fevereiro, com um Urso de Ouro especial e apresentou o novo filme, que agora virou o último, o documentário Varda par Agnès. Convidada a dar master classes, Varda cansou-se. Fez o filme, debruçando-se sobre sua vida e carreira, para enviar, sempre que lhe pedissem uma nova master class, uma nova conferência, uma nova palestra. ‘Essa sou eu.’ Lembro-me de haver ouvido Varda, numa entrevista, explicar o segredo de sua longevidade. Nos anos 1950, ou 60, ela visitou a China. Adquiriu o hábito de tomar um copo de água quente em jejum, pela manhã. Fez isso pelos 50 ou 60 anos restantes. Morreu de câncer de mama. Fez filmes intimistas como Cléo das 5 às 7 e e Le Bonheur/As Duas Faces da Felicidade. Filmou os Panteras Negras e o Poder Negro. Eldridge Cleaver, Angela Davis. Foi precursora da nouvelle vague, era feminista de carteirinha. Foi a suma sacerdotisa do culto ao homem que amou, o cineasta Jacques Demy. Em Varda par Agnès, ela se filma no século 20 e no 21. No 20, diz que era cineasta. No 21, tornou-se artista. Quem não souber entender a diferença não captará a essência, o mistério da grande arte de Agnès Varda.