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Adeus às tradições

Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2014 | 18h48

E o ano vai terminando. Pela primeira vez, desde que estou em São Paulo, não pude ver a São Silvestre. Tinha um monte de matérias para o Caderno 2 de amanhã, incluindo nossa capa sobre Uma Noite no Museu 3, que adorei – Shawn Levy é um grande diretor, e um autor -, a edição fechava mais cedo e eu passei a manhã na redação. Quando saí do jornal, chamei meu amigo Dib Carneiro para almoçar e fomos ao América da Paulista. Achei que seria o caos para chegar. Duas da tarde, a avenida já estava liberada, nem rastro da São Silvestre. Era como se não tivesse havido. E assim vão-se as tradições. A São Silvestre era disputada à noite, emendando com a virada. Até onde sei, foi a Globo, para ajustar a transmissão à sua grade, que exigiu a mudança para a tarde. Mas será que foi isso mesmo? E, agora, foi a Globo de novo que mudou para a manhã? Por causa da grade? Para não prejudicar a Malhação e o Vale a Pena Ver de Novo? Quando a corrida era à tarde, emendava com o show da virada na Paulista, o povo todo já ficava por lá. Vejo umas propagandas da Prefeitura de São Paulo, dizendo que está humanizando/melhorando a cidade e me pergunto se estará mesmo? Eu posso estar completamente equivocado, mas tenho birra das ciclovias e uma maneira muito pessoal de encará-las. Não duvido que ainda venham a pegar, embora hoje sejam um desperdício. Moro na Joaquim Antunes, tem ciclovia na Artur Azevedo, a via pode estar parada, entupida de carros, mas se tem uma bicicleta passando já é lucro. Em geral não tem. Vamos acreditar, como no samba do Chico – vai passar/nessa avenida… Por enquanto, me parece coisa de diletantes. Vi outro dia, na Paulista, uma ciclista em meio ao trânsito. Tinha uma marmita presa ao guidão. Obviamente, era trabalhadora e usava a ‘bike’, bem f…, para transporte, não lazer. Os bacanas ao volante, muitos deles, por certo, ciclistas de fim de semana, não tinham o menor respeito pela infeliz, que arriscava a vida. As mentalidades vão ter de mudar muito. Por enquanto, na minha leitura, as ciclovias sacramentam a luta de classes. Como? Fico pensando quando nossos milionários vão começar a usar bicicletas para ir para o trabalho? Eles vão de blindado, por nojo/medo de pobre. Já pensaram o fulaninho Bacana de Tal pedalando e cercado de seguranças? Para fechar meu último post de 2014, volto ao cinema. Não existem muitos filmes sobre réveillon. Existem alguns brasileiros bons – O Primeiro Dia, de Walter Salles e Daniela Thomas, André a Cara e a Coragem, de Xavier de Oliveira, com a imagem emblemática para mim, que nunca esqueço, de Stepan Nercessian cuspido pelo sistema, mal pago na grande avenida, enquanto chuvas de papel picado descem dos prédios. A velha luta de classes, os excluídos. A Abraccine divulgou sua lista de melhores do ano. O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra, foi o melhor nacional do ano e Boyhood, de Richard Linklater, o melhor estrangeiro. O que dizer? Gosto dos dois, mas melhores? Pop, não?