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Adam Sandler, magnífico no thriller dos Safdie Brothers

Luiz Carlos Merten

09 de fevereiro de 2020 | 09h26

Almocei ontem na Lúcia, ainda em meio à choradeira, lembrando a Angel que sempre queria se aconchegar quando a gente estava à mesa, ou sentado no sofá. Fui no sábado porque queria ver, na Netflix, o Uncut Gems, que a Netflix tem na sua grade, no Brasil, como Joias Brutas. O filme colocou Adam Sandler na lista de indicados para melhor ator do Critic’s Choice Award, que Joaquin Phonenix venceu, pelo Coringa, mas eu, pessoalmente, apoio muito esse reconhecimento para o Adam – o outro, Driver, nem se fala -, porque Sandler já deveria ter vencido como melhor ator, anos atrás, em Cannes, por Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson. Gostei muito do novo thriller criminal dos Safdie Brothers, Benny e Josh, que já haviam feito Good Time/Bom Comportamento, no Brasil, com Robert Pattinson. Martin Scorsese tem crédito de produção e o filme possui uma pegada a Os Bons Companheiros, numa Nova York frenética em que Sandler faz um negociante judeu de pedras preciosas, dividido entre a mulher e a amante, e enrolado com dívidas de jogo. Para saldar o que deve, e está sendo perseguido pelos capangas do próprio cunhado, ele aposta cada vez mais alto, numa espiral explosiva sem volta. Falei no Scorsese porque, dada a sua participação, parece bem óbvio, mas os Safdie também se alimentam muito de James Toback, Abel Ferrara e Brian De Palma – aliás, onde andará esse, de quem não vejo mais nada -, todos especialistas em expor essa Nova York sórdida, subterrânea, nada turística. E, embora não tenha pensado em Tarantino, o filme é muito pulp. Fiquei pensando – Sandler, conscientemente ou não, adotou uma referência e foi o Al Pacino, não propriamente o da trilogia do Chefão, mas os de Serpico e Um Dia de Cão, quando os personagens de Sidney Lumet começam a perder o pé da realidade. Já que falei em Pacino e Scorsese, isso me devolve a O Irlandês, com o qual implico tanto. É longo demais e até tem uma dimensão política interessante, ao abordar as conexões da Máfia na política dos EUA. Subentendido fica que, se a organização criminosa se envolveu no assassinato do presidente John Kennedy, matar o poderoso Jimmy Hoffa, do sindicato dos caminhoneiros, seria, ou foi, perfeitamente viável. Aceita a tese, e um tanto cansado dos múltiplos finais, o que me desagrada é que se trata de um filme de monstros. Scorsese nem tenta humanizar seus velhos gangstas, porque eles são desumanos, com seus laços de honra (ou interesses?) que substituem o afeto. Não consegui ter empatia pelos dramas daquela gente, e por isso a câmera que procura e chega ao velho De Niro, sozinho, abandonado, não me produziu uma fração da emoção que tenho com a imagem de Michael Corleone – também uma história de filha – no desfecho do Chefão 3. Netflix por Netflix, aou muito mais os Safdie.

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