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Adam Sandler, Como Se Fosse a Primeira Vez (e o bom é estar embriagado de amor)

Luiz Carlos Merten

13 de julho de 2019 | 11h19

Gostaria de estar hoje em São José do Rio Preto, no FIT, Festival Internacional de Teatro, isto, naturalmente, se Leandro Nunes tiver me passado a informação certa e for mesmo a estreia do Auto da Compadecida de Gabriel Villela. Merda, grande diretor – toda a sorte do mundo. Merda, de novo, e agora é no sentido da interjeição, desgosto, por não estar aí para assistir a mais esse triunfo – espero! Mudando de assunto, e voltando ao tema dos júris de festivais, indignei-me quando, em Cannes, anos atrás, nem me lembro qual júri deixou de premiar Adam Sandler como melhor ator por Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson. Podem me achar louco de pedra, mas acho Sandler muito bom ator, apesar da zona de conforto que o mantém dentro de um certo registro cômico que é o que mais agrada a seu público. Revi-o, ontem à tarde, na Globo, na comédia Como Se Fosse a Primeira Vez. No dia anterior, escrevendo um texto que creio que deve estar hoje no C2, sobre lançamentos de filmes franceses de romance, pensei na comédia de Peter Segal ao dedicar um parágrafo a Amor à Segunda Vista. A comédia de Hugo Gélin integrou a recente seleção do Festival Varilux, e estreou na quinta. Veio ao Brasil seu casal de protagonistas – François Civil e Joséphine Japy. Ele, me contaram, é o atual queridinho do cinema francês. Bonito, talentoso, o que mais? O diretor Hugo Gélin é neto de Daniel Gélin, que foi um grande astro francês nos anos 1940 e 50, com participação importante em clássicos de Max Ophuls e Sacha Guitry, embora sua filmografia seja majoritariamente formada por filmes daqueles diretores da qualidade francesa que o crítico François Truffaut, não sem certo mau-caratismo, fustigava, até como forma de promover sua turma (e a ele próprio). Daniel conheceu o ostracismo na época da nouvelle vague, mas ressurgiu nos 70, quando Truffaut estava fazendo os próprios filmes de qualidade, mas essa é outra história. Babado à francesa – Daniel Gélin era casado com Danièle Delorme e formavam o casal 20 da época, quando ele teve, fora do casamento, a filha, e futura atriz, Maria Schneider, aquela que dançou o último tango de Bernardo Bertolucci e foi, segundo ela, sodomizada por Marlon Brando. Hugo é neto de Daniel e Danièle, e vovó, ao se separar, redescobriu o amor com outro bom ator que virou diretor, permanecendo quase meio século, de 1956 até 2002, quando ele morreu, com Yves Robert, enquanto o marido realizava Guerra dos Botões, O Loiro Alto de Sapato Preto, A Glória do Meu Pai e O Castelo de Minha Mãe. Seria interessante conversar com Hugo Gélin e descobrir que memórias ele guarda dos sets do avô emprestado, Robert, principalmente de sua fase inspirada em Marcel Pagnol. Enfim, Hugo conta, em Amor à Segunda Vista, a história desse escritor, bem casado – a mulher é do lar -, que um dia briga com ela, vai dormir e acorda num mundo paralelo em que não apenas é anônimo, como a ex-mulher, que não o conhece, é uma celebridade. Ele passa o filme tentando se reaproximar, e reconquistá-la, e eu não pude deixar de pensar em Como Se Fosse a Primeira Vez ao ver Amor à Segunda Vista. Na comédia de Peter Segal, Adam Sandler se envolve com Drew Barrymore e ela, em consequência de um trauma, um acidente, sofre de perda de memória recente, ou seja, esquece hoje o que viveu ontem, o que obriga Sandler a transformar cada dia na primeira vez de ambos, o que não apenas é uma bela metáfora do amor e do casamento, como faz de Como Se Fosse a Primeira Vez ‘the ultimate romantic comedy’. É o filme em que Drew, adulta, está mais bela e cada close de Sandler, quando ele a olha… Uau! Você acredita no sentimento genuíno que esse cara passa estar sentindo. Bom ator demais, o Sandler. Verdade ou mentira? Importa? Para mim, o importante é que o bobão me passa à perfeição essa ideia de que é bom estar embriagado de amor. Como Seth Rogen e Charlize Theron em Casal Improvável. Pelo menos na ficção, os casais improváveis são os melhores.