As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Acorda, vem olhar a lua que brilha na noite escura… O que seria de nós, de mim, sem o Galpão?

Luiz Carlos Merten

27 de janeiro de 2019 | 23h05

Estou no jornal, a postos para o SAG Award, que começa daqui a pouco. Almoçamos, minha colega Regina Cavalcanti e eu, com João Luiz Sampaio e Maria Fernanda Rodrigues, mais o Francisquinho, filho deles, para comemorar o aniversário dela. Maria Fernanda entrou gloriosa nos ‘enta’. 40 anos! Parabéns. E agora jantamos, Regina e eu, no Pizza Hut, aqui ao lado do Estadão. No intervalo entre as duas refeições, fui ao cinema e ao teatro. Wajib – Convite de Casamento, o belo filme da palestina Annemarie Jacir, e Outros, a segunda montagem do Grupo Galpão com o dramaturgo e diretor Márcio Abreu. Gosto muito do filme. Pai e filho respeitam a tradição e entregam pessoalmente os convites do casamento da filha e irmã. O filho veio da Itália, onde vive com a namorada, filha de um antigo dirigente da OLP. Entre pai e filho existem velhos ressentimentos. A mãe abandonou o marido, que criou os filhos sozinho. O filho rebelde radicalizou seu comportamento político e sempre reprovou o que lhe parecia a alienação do pai, que viveu a vida toda sob o jugo israelense. Há um momento maravilhoso quando pai e filho brigam, gritam e se dizem duras verdades. O filho acusa o pai, o velho retruca que é fácil viver o exílio distante, uma Palestina sonhada, enquanto a real é a do dia-a-dia, com todas as suas dificuldades. Puta filme bonito. Do cinema corri para o teatro, o Sesc Bom Retiro, para conferir a primeira direção de Márcio Abreu. Teatro lúdico, performático – e experimental. Situações de opressão e convívio, questões atuais como gênero, violência, intolerância e convívio com a diferença. Quem mais, senão Teuda Bara, poderia questionar o tempo, a finitude? Essa mulher talvez não tenha feito tudo o que quis, mas viveu sempre no limite, desafiando códigos e cânones. No final, o elenco reunido canta a Melodia Sentimental de Heitor Villa-Lobos.
Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que surge tão bela e branca
Derramando doçura
Clara chama silente
Ardendo meu sonhar
Virei uma manteiga derretida. Chorei copiosamente assistindo a Outros.
As asas da noite que surgem
E correm o espaço profundo
Oh, doce amada, desperta
Vem dar teu calor ao luar
Viajei na mineiridade, que tanto me fascina, e não pude deixar de me projetar nessa nova tragédia que se abateu sobre as Gerais. Três anos depois do rompimento da represa em Mariana, que causou todo aquele dano ambiental, a repetição em Bromadinho cobrou um preço humano muito maior. Leio na capa do Estadão de amanhã – 305 desaparecidos e 58 mortos. No sábado, em Porto Alegre, o tema haviam sido os seis anos de outra tragédia, a da boate Kiss. Que País é esse? Abençoado por Deus? Onde, como? Todo esse descaso, esse desrespeito pela vida humana…
Quisera saber-te minha
Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera
Quando dentro da noite
Reclama o teu amor

Acorda, vem olhar a lua
Que brilha na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir seu amor é sonhar
Obrigado, Galpão. Eduardo, Inês, Teuda, Fernanda, Júlio, Lydia, Paulo André, Simone, Antônio Edson, Beto. Ainda bem que existem vocês. Só a arte nos salva, nessa miséria toda que viraram o mundo (e o Brasil).