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Acertei, mas preferia ter errado

Luiz Carlos Merten

25 Fevereiro 2013 | 11h53

E, afinal, para dar prosseguimento a meu último post, não houve reação nenhuma de Steven Spielberg no Oscar. Infelizmente, acertei todas as previsões feitas no especial da TV Estadão, com exceção do Oscar de melhor coadjuvante, que achava que iria para Tommy Lee Jones, por seu papel em Lincoln (mas gostei que tenha ido para o Christoph Waltz de Django Livre). Ator, atriz, diretor, filme, filme estrangeiro, os prêmios técnicos de as Aventuras de Pi. Não errei uma. Tirando sarro de mim mesmo, nem sabia que entendia tanto de Oscar. He-he. Brinco – preferia ter errado bastante. Mesmo gostando de Argo, fiquei indignado com o resultado. Meus colegas da crítica saudaram o amadurecimento da Academia, as visões da América, o fato de os indicados confrontarem os EUA com sua história passada e recente. Onde, como, cara-pálidas? Quatro filmes entre nove não compõem nem a metade – Lincoln e Django Livre, para o passado, A Hora Mais Escura e Argo, para o presente. Mas digamos que houvesse essa preocupação política – foi esvaziada na premiação. Argo é o mais hollywoodiano, do ponto de vista da narrativa, com suspense e humor, dos indicados a que me referi. Sua metalinguagem é palatável – onde estão Alan Arkin e John Goodman quando aquele telefone toca, desde Teerã? Era até o que se falava que depunha contra o filme de Ben Affleck e explicava o fato de ele não ter sido indicado para diretor. Quanto a Ang Lee, por mais preocupações filosóficas (teológicas?) e linguísticas que tenha seu Pi, é uma grande celebração da fantasia e da técnica, e nada mais cinemão. Imagina, não tem nem tigre. Tudo aquilo, e a baleia voando sobre o barco, é efeito. Política, é? Hã-hã. Pontualmente, acho que alguns prêmios foram merecidos. O Haneke, mesmo que não morra de amores por Amor – no deserto da premiação, aquilo pelo menos me causa incômodo; o melhor ator, Daniel Day-Lewis, que fez história como o primeiro a receber três Oscars. Jennifer Lawrence quase caiu, tropeçando naquele vestido, mas daí a ser aplaudida de pé… Endoidaram. O Lado Bom da Vida ganhou o Spirit como melhor filme independente. Ganhou quase tudo – filme, diretor (David O. Eussell), roteiro, atriz. O Lado Bom está longe de ser ruim, mas tem os dois pés em Hollywood. Se o Spirit fosse sério, teria ido para Indomável Sonhadora, que, aquele sim, é indie. Sei que tem gente que não gosta do Spielberg, não desse (Lincoln), em especial, mas do Spielberg – ponto. Por um momento, cheguei a vacilar e, quando Michelle Obama surgiu da Casa Branca para anunciar o melhor filme, pensei que poderia dar Lincoln, que Spielberg foi mostrar, em Washington, para o presidente e sua mulher. Que grandioso teria sido, hein, mas a Academia perdeu o momento. Spielberg nunca comentou o que Obama achou do filme. Só disse que a sessão foi ‘gratificante’. No programa da TV Estadão, Lúcia Guimarães, de Nova York, criticou a falta de transparência de Obama, o fato de ele não dar entrevistas. Mas, também, durante os oito anos do governo Bush (Jr.), a imprensa esteve atrelada à Casa Branca, controlada e manipulada pela gangue do presidente em nome da segurança nacional e do combate ao terror. OK, a imprensa não precisaria ser aliada de Obama, mas com certeza nunca foi imparcial e a rejeição do atual presidente é perfeitamente compreensível. Lúcia também levantou a questão da rejeição à tortura como determinante para que A Hora Mais Escura, depois de seduzir a crítica, tenha tubulado no Oscar, não ganhando nem uma indicação de direção para Kathryn Bigelow.  Tenho, para mim, que A Hora é um filme spielbergiano. Remember Munique, a fala de Golda Meir. No combate ao terror, ao adotar o método do inimigo, você se arrisca a virar como ele e a perder a alma. A tortura entra no filme da Bigelow como ferramenta porque foi uma prática corrente durante os anos Bush. Vão querer negar agora, é? Para poderem dormir com a própria (má) consciência? A trajetória da personagem de Jessica Chastain reproduz a do Eric Bana de Munique – ela também perde o rumo (e a alma). No final de A Hora, a heroína protofeminista de Kathryn Bigelow, depois de se impor por sua acuidade no universo masculino, confronta o próprio vazio. Fodona. Amei. A Hora é um filme spielbergiano, e Steven, com sua trilogia informal, formada por O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique, deu o testemunho mais sólido e radical sobre a América pós-11 de Setembro. A Hora coloca questões éticas – é spielbergiano porque trata da dúvida, não de certezas. A grandeza de Spielberg, que eu demorei a entender, é que ele virou, nessa Hollywood mediocrizada, o cineasta da dúvida, e essa é uma herança de Otto Preminger, que foi pioneiro ao se bater contra a censura no cinemão. Spielberg estava denunciando Bush quando a imprensa era conivente com ele. Oscar de m… Poderia ter feito história (de verdade). Preferiu arreglar, como aquele insuportável Seth McFarlane. Como atrair o público jovem com um cara daqueles? E que jovem vai ficar três horas diante da TV vendo aquela lenga-lenga? No máximo, o jovem twitta, para saber quem está ganhando. Mas McFarlane, como pai de Ted, teve um momento incorreto, que adorei. Não sei se foi ele quem escreveu o diálogo, mas a cena de Mark Wahlberg com o boneco foi sensacional. Ted queria saber se Mark era judeu. ‘Sou católico’, ele respondeu. O boneco resolveu lhe dar outra chance, advertindo – nesta cidade (Hollywood), é melhor ser judeu. Existe até livro sobre isso. Hollywood como invenção dos judeus, os primeiros tycoons que investiram na indústria, formadora de opinião, para se convencer, e convencer os outros, de que eram norteamericanos, apesar da origem europeia. Por menos que tenha gostado do Oscar – da cerimônia e da premiação -, gostei dos filmes, dse maneira geral. E acho que, no estado geral do mundo, teria sido utópico esperar outra coisa.