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A voz e a vez das manas

Luiz Carlos Merten

31 de março de 2019 | 09h46

Não tenho parado de pensar na entrevista de Nana Caymmi na concorrência. Naquela parte que ela diz que era boateira, que dançava que nem uma filha da puta e saía com as amigas para pegar homem. E pensei que Nana talvez seja uma Leila Diniz que conseguiu ficar velha – sem ofensa. Na contabilidade do repórter que fez a matéria, foram 71 minutos de entrevista e 89 palavrões. Lembrei-me das entrevistas históricas do Pasquim. Leila e seus palavrões, Maria Bethânia contando como comer comida baiana a deixava tesuda. Não era só uma forma de resistência à ditadura militar – que o coiso quer que seja comemorada neste domingo, 31 -, mas era também uma afirmação feminina e feminista. Palavrão era coisa de homem, e aquelas mulheres falavam como homens, dando vazão a seus desejos e instintos. Vi ontem na Mostra Tiradentes em São Paulo Tremor Iê, de Elena Meirelles e Lívia de Paula, que tem um pouco disso. Mulheres na noite de Fortaleza, participando de ações guerreiras e tocando tambor na rua. A ação é contra o mausoléu do general Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente do regime militar. Onde está o corpo?, pergunta o policial. Curioso que tenha visto o filme justamente ontem. Tremor Iê tem algo do futuro distópico de Adirley Queirós. Não é bom, mas gostei de ter visto. Tem momentos fortes, falas fortes das ‘manas’. Não se trata de ‘dar’ voz às mulheres. Não é nenhuma outorga. Elas falam, abrem seu espaço. Lembrei-me de Baronesa, de Juliana Antunes, que ganhou a Aurora há dois anos. De volta a Nana, seu discurso mainstream, apesar do linguajar chulo – vejam o guru Olavo -, é antipetista. ‘A Bahia não tem mais nada, é PT.’ Chama o ex-marido – Gilberto Gil – de chupador de p… de Lula. Lembra com saudade o capo Antônio Carlos Magalhães, de quem toda a família era amiga. Deixa subentendido que aquele tempo, sim, era bom. Pra quem, cara-pálida? Certamente não para quem não contasse com as boas graças do poderoso chefão. Mas eu não pude deixar de pensar. ACM preparava terreno para que o filho, que hoje é nome de aeroporto em Salvador, fosse presidente do Brasil. Mas ele morreu precocemente, e eu me pergunto se o rumo da história (do Brasil) teria sido outro, se Luís Eduardo Magalhães tivesse chegado lá. Até nisso a história do País é feita de rupturas. A pergunta que não quer calar – ‘ele’ chega até o fim (do mandato)? E, se não chegar, o que nos reserva o futuro? Cá estamos, vivendo as consequências do verdadeiro salto no vazio que foi dado no ano passado.