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A volta de Rocco

Luiz Carlos Merten

01 Agosto 2016 | 00h35

Juro que não sabia. Fui diversas vezes ao Cinesesc, durante o Festival Latino, antes de viajar para Nova York, e nunca encontrei a menor indicação de que Rocco e Seus Irmãos estaria sendo relançado na quinta, 28. Cheguei e encontei o fato consumado. Rocco! O filme da minha vida! Durante a Mostra, arrastei o Dib para ver o filme comigo, na sala da Biblioteca Oswald de Andrade. Vou ter de arrastar de novo, ou ver sozinho. Alain Delon! Annie Girardot! Renato Salvatori! Quantas vezes vocês já leram aqui que Annie tem, para mim, em Rocco, a maior interpretação feminina da história do cinema? Vou tergiversar um pouco. Sempre que vou a Paris, vou a Notre Dame. Dentro da catedral, gosto de me sentar na nave central e olhar aqueles vitrais, dando liberdade (total) à minha imaginação. Também me impressionam o Cristo negro, na cruz, à direita de quem entra, e um pouco adiante, no mesmo corredor, a estátua de (Santa) Joana d’Arc. A inscrição, que já li e reli não sei quantas vezes, diz que ela foi queimada viva, aos 19 anos, acusada de bruxaria e que sua reabilitação foi decidida na catedral. Pergunte a críticos respeitáveis e eles com certeza colocarão O Martírio de Joana d’Arc, de Carl Theodor Dreyer, entre os maiores filmes de todos os tempos. Falconetti, a donzela de Órleãs de Dreyer, já era uma mulher, e não uma garota, quando fez o papel. Conta a lenda que Dreyer, para esculpir na Falconetti a sua Joana, submeteu a atriz a verdadeiras torturas psicológicas. Ela não resistiu – enlouqueceu. Pergunto-me sempre, e aproveito agora a volta de Rocco, para me perguntar por que Visconti escolheu a Girardot para ser sua Nadia? O filme era uma coprodução franco-italiana, ou ítalo-francesa. Os produtores franceses sugeriram Brigitte Bardot, depois Jeanne Moreau. Luchino viu a Girardot no teatro e bateu pé. Era ela, e tinha de ser ela. Pergunto-me se ele antecipou em Annie a capacidade de autodestruição de Nadia, ou se, pelo contrário, como Falconetti, Annie incorporou a persona da personagem? Annie casou-se com Renato Salvatori, o Simone. Amavam-se loucamente, mas não conseguiam viver o que se chamaria de ligação ‘normal’, seja lá o que isso possa ser. Bebiam, agrediam-se, corneavam-se, e foi assim até a morte dele. Annie ligou-se depois a renomados crápulas, Um marido bateu tanto nela que arrebentou seus dentes. Outro, tomou-lhe todo o dinheiro para financiar um show (era cantor). O fracasso foi retumbante, e ela ficou endividada. Se não fosse esse tipo de mulher, dependente de seus machos, viciada neles, Annie conseguiria incorporar a Nadia? O filme é sobre a desintegração de uma família meridional na cidade grande. No Brasil, os nordestinos pobres descem para o Sul maravilha, São Paulo. Na Itália, o caminho é inverso, e os meridionais buscam a industrializada Milão, no norte. Uma mãe e seus cinco filhos, unidos (a princípio) como os dedos de uma mão. O filme tem a estrutura narrativa de uma crônica familiar. Um capítulo para cada filho. Nadia, a prostituta, se envolve com Simone, depois com Rocco. O segundo lhe descortina uma outra possibilidade de vida que não a comercialização do próprio corpo. Simone reage como uma ‘bestia’ e estupra Nadia diante do irmão. A partir daí, a tragédia é inevitável. O filme tem, para mim, algumas das mais belas cenas filmadas. O diálogo de Nadia e Rocco, quando ela sai da cadeia e ele abandona o Exército, é de despedaçar, como a história que Rocco conta, após seu triunfo como boxeador, sobre o pedreiro que, no paese, sacrifica um tijolo, para que a casa cresça sólida. O sacrifício de Simone? Tive o privilégio de, num Festival de Veneza, me aproximar de Suso Cecchi d’Amico, a grande roteirista de Visconti. Ela percebeu que eu era siderado por Rocco. Mantive com ela muitas conversas por telefone, até sua morte. Suso me esclareceu uma coisa que sempre me perturbou. Quando Rocco volta do Exército, ao chegar em casa ele soa a campainha numa porta que tem uma placa dizendo (família) Pafundi. Como, por que, se a família de Visconti é Parondi? Suso me explicou que, originalmente, a família era Pafundi, um nome muito comum entre meridionais, uma espécie de ‘Silva’ no Brasil. Acontece que o procurador da República italiana era Pafundi, e sentiu-se atingido. Ameaçou interditar o filme, que já estava programado para concorrer em Veneza. Visconti, que sempre trabalhou com dublagem, ou sonorização ‘pós’, voltou ao estúdio e fez a mudança na trilha, mas não na imagem. Tudo em Rocco é superlativo. A interpretação – além da Girardot, Katina Paxinou, que faz a mãe, Rosario, também é excepcional -, a fotografia de Giuseppe Rotunno, a música de Nino Rota. Não sou o único a amar Rocco. Francis Ford Coppola bebeu na fonte de Visconti para fazer O Poderoso Chefão, e chamou Nino Rota para sua trilha. Posso não gostar muito do Martin Scorsese diretor, mas respeito o restaurador (e o crítico). Sua análise de Rocco naquela viagem pelo cinema italiano está à altura do filme. Completaram-se, em março, 40 anos da morte de Visconti. Em dezembro, serão 110 anos de nascimento. Nesse quadro, a volta de Rocco no Cinesesc tem um significado especial. E pensar que, em Veneza, em 1960, o júri preferiu atribuir o Leão de Ouro a André Cayatte, por A Passagem do Reno… Por uma vez tenho de concordar com François Truffaut, que ironizava – ‘Se o pessoal do cinema vê em Cayatte um advogado, o da toga o toma por cineasta.’ Nem lá nem cá ele era bom, mas foi suficiente para tirar, no Lido, o prêmio do meu filme preferido. Rocco não é menos genial por isso.