A Vizinhança do tigre
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A Vizinhança do tigre

Luiz Carlos Merten

28 de janeiro de 2014 | 13h34

TIRADENTES – Preciso fazer logo uma correção, antes que me esqueça. Não vai mudar nada meu conceito sobre o novo filme de Cristiano Burlan, Amador. Houve um debate após a projeção do filme,  mas tive de sair porque tinha de enviar matéria para o jornal e queria ver o Paulo Sacramento, Riocorrente. Passei, depois, o resto do tempo caçando o Cristiano por esta cidade e percebia que a confusão não era só minha. Muita gente se confundia por causa do novo corte de cabelo dele. Chegaram a me apontar um cara com quem fui falar, e não era ele. Enfim, coloquei nos textos do blog e do jornal que Cristiano fazia o diretor dentro do próprio filme. Não é. Quem faz o papel é um ator, Henrique Zanoni, que veio me informar que Cristiano vai fazer agora um Hamlet, com Jean-Claude Bernardet como o espectro. Quem  chora é Henrique, não o Cristiano, embora o personagem seja alter-ego do diretor. Não fiquei menos impactado pelo filme por isso. A Mostra Aurora iniciou-se ontem com A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa. Anos atrás, nem tantos assim, o diretor mostrou aqui Mulher à Tarde, que, até onde me lembro, não era ruim, mas era formalista, muito preocupado com o enquadramento etc e tal. O novo filme de Uchoa é mais vital. Ele continua preocupado em fazer um  filme bem feito, em construir uma dramaturgia, mas tudo agora é mais ‘bruto’. O filme conta a história de garotos de periferia. Erroneamente, é definido como  documentário no catálogo de Tiradentes, mas o próprio diretor esclareceu que, por mais que tenha improvisado com os atores em seu habitat – e eles são jovens da periferia de BH -, o filme é ficção. Já havia percebido isso pela própria estrutura, pelo arco dramático que faz com que a história adquira tons cada vez mais sombrios até culminar no que é a tragédia de um dos garotos, Juninho. Gostei demais. Uchoa cede à tentação de se colocar em cena. Mesmo ‘processual’, o filme pertence aos personagens, que são muito fortes. Adorei as cenas em que eles performam, exibindo sua macheza. No fundo, mascaram sua fragilidade. Qual é a perspectiva desses jovens, demonizados aos olhos da classe média, que só consegue enxergá-los como perigo? O filme os mostra em pleno processo de afirmação de identidade. Onde está o tigre? É a natureza selvagem, a revolta que, internamente, eles precisam domar, mas também pode ser um elemento externo, a adversidade. A musicalidade ganha força nos créditos finais, após a dedicatória ao garoto que morreu – o Eldo, de tuberculose – por meio da letra no rap dos Pacificadores, de Brasília. Eu queria mudar/eu queria mudar/eu queria mudar/eu queria mudar. Mas como? O filme não propõe respostas, mas é emocionante ver esses jovens com seu potencial que pode muito bem se perder na realidade da vida. No debate, dois estavam na mesa com o diretor. Disseram que a experiência mudou-os para sempre. Fiquei mais emocionado ainda.

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