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A vitória paraguaia em Berlim

Luiz Carlos Merten

24 de fevereiro de 2018 | 09h15

E o Brasil já tirou sua casquinha na premiação da Berlinale de 2018. Las Herederas, do estreante paraguaio Marcelo Martinessi, com aporte do Brasil, via a produtora de Júlia Murat – premiada no ano passado com Pendular -, venceu o prêmio da crítica. Leio uma nota de Rodrigo Fonseca em que ele, dando conta do prêmio, disse que Abbade (Mário?) homenageou José Carlos Avellar, o maior dos críticos brasileiros – a esse me curvo -, lembrando como ele havia sido guerreiro em Cannes, para que Hamaca Paraguaya, de Paz Encina, fosse premiado anos atrás. Era meu ano na Caméra D’Or, e bem que tentei, mas os presidentes do júri, irmãos Dardenne, não tiveram nenhuma sensibilidade em seu olhar sobre a produção latina – havia outro filme mexicano, lindo, que eles também ignoraram. Estavam mais interessados nos filmes do antigo Leste europeu. Terminamos premiando um bom filme romemo, A Leste de Bucareste, de Corneliu Porumboio, mas o de Paz, como Honor de Cavalleria, outra joia ignorada do catalão Albert Serra, ficaram comigo. Gostei muito do novo filme de Paz Encina, Exercícios de Memória, que vi no ano passado, na Mostra. Leio que As Herdeiras aborda a relação entre duas sexagenárias lésbicas que precisam enfrentar a prisão de uma delas, acusada de fraude bancária. Lamento muito não ter estado em Berlim para ver Las Herederas, e sua consagração. Talvez seja inexato dizer, mas anos atrás houve um boom do cinema uruguaio em festivais e os diretores explicavam, singelamente, que o fato de não haver uma grande produção de TV no país, ao contrário do Brasil, estimulava a que o cinema se desenvolvesse como a expressão audiovisual nacional. No Paraguai, imagino que seja a mesma coisa. A produção é pequena, mas rigorosa, de qualidade. Hamaca, para voltar a Paz Encina, me toca de uma forma muito particular. Um casal de velhos num casebre, o mato (a floresta?) atrás da casa. Conversam, mas muito é dito através de seus silêncios. Esperam o filho. A morte? Talvez exista algo de Godot nessa situação, mas o filme me lembrou muito o livro de um autor gaúcho, Josué Guimarães. Enquanto a Noite não Chega é sobre outro casal de velhos, últimos moradores de uma cidadezinha abandonada. E depois, meu amigo Dib Carneiro, sem ter visto o filme de Paz nem lido o livro de Josué, escreveu sua mais bela peça, Paraíso, sobre um terceiro casal de velhos, também numa espera sem fim. É seu mais belo texto, e olhem que ele ganhou o Shell por Salmo 111 e escreveu textos fortes que Gabriel Villela dirigiu lindamente. O problema é que Antônio Abujamra estragou Paraíso, com uma montagem que pouco ou nada guardava do original. Divago. Toda a força ao cinema paraguaio.

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