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A vingança de uma mulher

Luiz Carlos Merten

14 de abril de 2014 | 00h47

Sem preâmbulos – fui hoje pela manhã à redação do Estado para fazer minhas matérias do dia. Uma entrevista com Lília Cabral, que fiz na casa dela, no Jardim Botânico, para falar do novo filme, Júlio Sumiu, e da nova novela, Falso Brilhante. E o texto da premiação do É Tudo Verdade, incluindo a entrevista com Carlos Nader, diretor do ótimo Homem Comum, com quem falei aos 45 do segundo tempo, quando, teoricamente, já deveria estar saindo do Limão para almoçar com minha filha no Morumbi. A Lúcia está com dengue, ó céus! Nader fez história como único diretor a vencer duas vezes o É Tudo Verdade – a primeira foi com Pan-Cinema Permanente, sobre Wally Salomão. Nunca vi diretor sobre o qual se apliquem tantos rótulos equivocados. Videoartista, e ele é o primeiro a dizer que nunca se sentiu como tal. Discípulo de Eduardo Coutinho – só por que fez um documentário sobre ele? Não existem artistas de métodos mais diversos, e agora que escrevi isso lá vou colher mais alguns desafetos. Havia perdido Confia em Mim – quero dizer: nem sei se houve cabine – e lá fui eu ao Frei Caneca. Tenho meus princípios éticos – assim como não aceitei o per diem na junket de Alemão, paguei (caro) para ver Uma Viagem Extraordinária em 3-D no Instituto Moreira Salles, no Rio. Estava sem crachá do Festival Varilux, que não havia pegado, e não ia ficar mendigando ingresso em porta de cinema. Da mesma forma, ao chegar ao Frei Caneca, e mesmo tendo permanente, preferi pagar. Ora, se paguei por um filme francês, como não ia pagar por um brasileiro que, não sendo comédia, já parte com menos público? Vamos lá. Surpreendi-me duplamente. A sala não estava lotada, mas tinha mais da metade dos assentos ocupada. Pensei comigo que devia ser o efeito Mateus Solano, o Félix da novela Amor à Vida. Como falei de duas surpresas, e foram, vamos logo à outra. Gostei! Os grandes policiais do cinema brasileiro são obras de linguagem ou de realismo social – Cidade Ameaçada, Assalto ao Trem Pagador, O Bandido da Luz Vermelha, Rainha Diaba,  Lúcio Flávio – Passageiro da Agonia. Confia em Mim investe no suspense à Hitchcock. A história não é nova, mas o novo, no cinema, já morreu de velho e o que se conta talvez seja menos importante do que como se conta. Claude Chabrol me disse isso – “J’ai plusiers fois filmé n’importe quoi, mais pas n’importe comment.”Fernanda Machado faz a chef que cai na lábia de Solano e lhe entrega o dinheiro que não tem (e pediu à mãe) para montar restaurante. O filme tem mais ou menos o sentido de uma revanche, e em vez de Confia em Mim poderia se chamar A Vingança de Uma Mulher. Mas Confia em Mim é interessante. Remete aos thrillers paranoicos de Hollywood nos anos 1970, quando a quebra de confiança nas instituições políticas e sociais, como consequência do escândalo de Watergate, transferiu-se às relações interpessoais. E aqui faço uma pausa. Como achei o filme de Michel Tikhomiroff – imagino que seja filho do João Daniel, de ‘Besouro’ – bem interessante, resolvi checar na internet como tinha sido recebido. Caí do cavalo. Só encontrei críticas que diziam que o filme é medíocre, mas são – as tais críticas – mais medíocres que o filme jamais conseguiria ser. Pois eu achei a progressão dramática bem bolada. A aparente comédia romântica que vira caso de polícia, a polícia que lava as mãos e abre caminho para a atividade de outsiders – o policial que ajuda Fernanda e a própria, que, a proposito, achei muito (muito!) boa atriz, melhor que o Mateus Solano, que traz uns trejeitos de Félix para o papel e levanta a questão de que só uma mulher muito apaixonada por ele se deixaria enganar. Mas o que realmente me interessou foi o seguinte – não sei nem se foi uma intenção do diretor e de seu roteirista Fábio Danesi, mas a partir da solução proposta para apanhar e punir Caio (Félix) no desfecho, acho que há aqui uma metáfora muito interessante do Brasil mensaleiro. Não discuto se houve o mensalão nem se os caras praticaram os crimes de que eram acusados. Quem leu o livro de Paulo Moreira Leite e sabe das críticas de advogados e juristas importantes à condução do caso no Supremo, sabe que muitas vezes as provas não eram conclusivas, mas, afinal, aquele morcego fez direitinho o que se esperava dele como homem que ia salvar o Brasil. Afinal, quando lhe outorgou o título a tal revista fez dele um refém, não? Sinceramente, esperava que o documentário de Jorge Furtado no É Tudo Verdade fosse mais fundo nessa discussão, em particular. É verdade que o resultado do mensalão não foi exatamente o esperado – não se pode enganar todo mundo o tempo todo. O que o filme de Tikhomiroff mostra, a vingança de uma mulher, é que evidências e provas podem ser forjadas e que nós, o público, aceitamos em nome da catarse, quando estamos convencidos de que não há outra solução e que Justiça, essa senhora cega, o que já revela alguma coisa, está sendo feita. A isso chama-se manipulação, coisa que diretores e jornalistas sabem fazer muito bem. Mari, a personagem de Fernanda, domina o filme. E, quando ela dá a volta por cima e impõe suas condições ao chef que a impedia de voar, nós sabemos que nada mais vai impedi-la. Sua ousadia na cena do download já dá uma medida dessa reviravolta. E aí vou ler as críticas – eu, hein? – e é um chavão atrás do outro. O problema começa na construção dos personagens, a fotografia é chapada, a direção de arte impessoal etc. Tudo isso significa o quê? Pois eu achei bem construídos (os personagens) e, melhor ainda, interpretados. Nada cinco estrelas. Umas três, talvez, mas vi o filme com interesse e até emoção, com medo de que personagens secundários fizessem parte do plano para desestabilizar a heroína. Finalmente, estamos tendo os nossos policiais paranoicos, sobre a quebra de confiança. Em quê? Cabe a você, leitor, responder.

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