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A vida no isolamento

Luiz Carlos Merten

24 de março de 2020 | 19h33

Em tempos de isolamento, e o dia inteiro ligado nessa desgraceira que atinge o planeta inteiro, sinto que me sentimentalizo além da conta. São tantas histórias de solidariedade, e também de pessoas que perderam a ética, ou nunca tiveram. Como é possível que uma médica dissemine fake news, que pessoas de moralidade irrepreensível (ou assim parece, aos olhos dos outros) estejam fabricando álcool gel em garagens, sem nenhum controle ou garantia? Pode ser que eu misture as coisas, mas quando eu vejo essas estantes de autoajuda, em aeroportos ou livrarias, com livros do tipo ‘Ligue o foda-se (com todas as letras) para ser feliz.’ Como assim? Quando, e como, o outro deixou de ter importância? Insisto que devo ser um velho tolo porque, sozinho, aqui no meu canto, entre uma entrevista e outra (tenho feito muitas), entre um texto e outro (para o impresso ou o online do Estado), essas questões têm me afligido mais do que nunca. Tanta gente numa corrente de solidariedade. Me emociono, fico sentimental, o que nunca é bom para um crítico. Revi ontem Um Lugar Chamado Notting Hill, que um antigo amigo meu considerava um clássico da comédia romântica. Julia Roberts, Hugh Grant. O amigo foi-se, o filme continua (bom). Vi hoje, na Sessão da Tarde, Fazenda dos Cisnes. Um viúvo, seus três filhos e a ornitóloga que entra na vida deles como a possibilidade de construção de uma nova família. Comecei a ver o filme de Jeff Bleckner meio por inércia – a TV estava ligada, eu redigia um texto para o jornal – e, de repente, estava ligadíssimo. Um filme diferente sobre crianças, animais e os santuários em defesa da natureza. Gostei muito, e não creio que tenha perdido o senso crítico. Que bela dupla Jason Lee e Minka Kelly formam. Não fazia a menor ideia de quem era ela. Fui pesquisar e descobri que fazia uma androide na série Detroit Become Human, que nem sabia que existia. Agora mesmo, de novo a TV está ligada. O SP TV está abordando um tema doloroso. Nesse transe todo, as pessoas não estão podendo nem chorar seus mortos. Caixões lacrados, velórios de 15 minutos, fila de espera nos crematórios. Pouco antes estava no ar a novela Éramos Seis. Parei porque houve uma cena entre Glória Pires e Irene Ravache que se encontraram no asilo. Emoção na medida justa, duas atrizes dominando sua arte. Glória é sempre aquele espanto. Nunca vi Irene melhor, pelo menos não no cinema. Já disse que me lembro do livro da Sra. Leandro Dupré, em que Dona Lola termina sozinha, depois de se sacrificar tanto pelos filhos. Fiquei pensando comigo que, principalmente nesse momento, seria ótimo se a novela mudasse o desfecho. Muito mais que uma mãe? Mulher? Empoderada?

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