As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A vida como ela é

Luiz Carlos Merten

12 Janeiro 2017 | 20h05

BUENOS AIRES – Cá estamos, desde ontem à noite. Estamos num hotel de Palermo, próximo a uma praça muito movimentada, cheia de bares e restaurantes, e que à noite fica parecendo a Vila Madalena. Fomos ver agora à tarde em Belgrano o novo filme de Mel Gibson, Hastas el Ultimo Hombre, Até o Último Homem, que não sei se vai se chamar assim. Mel Gibson virou aquela figura que as pessoas amam odiar. Tem fama de antissemita, homofóbico. Bem – esse último não deve ser mais, porque seu filme é interpretado por Andy Garfield, o ex de Emma Stone, que se assumiu como bissex. A história – real – de um objetor de consciência, que entrou para o Exército, durante a 2.ª Grande Guerra, e brigou pelo direito de não portar armas. O sujeito vai à guerra, sem armas, e ainda vira herói, salvando dezenas de vidas. Mel Gibson é um grande realizador e um autor, sinto dizer. Sua Paixão de Cristo já era um filme visceral. Esse, então, é de um realismo brutal e de uma intensidade de cortar o fôlego, mas não sei agora do que Mel será acusado. Antinipônico, talvez. Ninguém é mais crítico e insatisfeito com o estado do mundo que eu, mas não sinto que a correção política esteja ajudando muito. Fiz no outro dia, no Caderno 2, a contracapa dos filmes que vão representar o Brasil em Berlim. Entrevistei Marcelo Gomes, de Joaquim, e Daniela Thomas, de Vazante. Daniela inspirou-se numa história longínqua de família, um ancestral de 40 e poucos anos que se casou com uma menina de 12, quando isso era tolerado. Depois do cinema, Dib Carneiro eu passamos na Livraria El Ateneo da Santa Fe. Queria dar uma olhada nos livros de cinema e comprei três. Uma coletânea de ensaios de Henri Langlois, um volume de Leonardo d’Esposito sobre ’50 filmes que conquistaram o mundo’ e outro chamado El Libro del Cine, editado originalmente pela Penguin. Havia outro livro que só folhei, Escândalos de Hollywood (ou algo assim). Entre outras reencontrei a história de Gloria Grahame, vencedora do Oscar de coadjuvante por Assim Estava Escrito, de Vincente Minnelli, com Kirk Douglas. Gloria era ninfômana. Casada com Nicholas Ray, o grande autor encontrou-a na cama com seu filho de 13 anos, Tony. Separaram-se – hoje em dia Gloria seria presa por abuso, pedofilia. Tony cresceu, virou homem, voltou para Gloria. Casaram-se e viveram juntos por 14 anos, o casamento mais longevo dela. Não sei que conclusão estou querendo tirar ou por que juntei coisas tão díspares, mas a história de Gloria e Nick Ray sempre me impressionou muito. A experiência do objetor de consciência de Mel Gibson, também. O cara era chamado de covarde. Salvou até os que debochavam dele, da sua recusa em portar armas. E o filme de Mel recusa o que seria o recurso hollywoodiano – o momento em que o protagonista deveria descobrir a importância das armas. Não! Esse homem viveu e morreu com sua consciência, como o Cristo da Paixão. Fiquei chapado. E Gloria? Foi feliz com o ex-enteado Tony, que lhe deu dois filhos. Pensem o que quiserem desse post. Ia deletar. Resolvi deixar. E,mesmo com risco de ser chamado de louco, irresponsável, não pude deixar de pensar que o mundo já foi melhor.