As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A versão ‘Mulheres Diabólicas’ do affair Lizzie Borden

Luiz Carlos Merten

06 de janeiro de 2019 | 18h29

Duas ou três coisas sobre a minha (breve) temporada carioca. Almocei sábado, ontem, com Kika Freire no Oia, um grego/mediterrâneo da Praça N.S. da Paz, em Ipanema, do lado da Barão da Torre. Amei, a companhia, o cardápio. Recomendo. À tarde fui ver Lizzie, que achei mais ou menos, e saí do cinema debaixo do maior toró, o que me obrigou a ficar de castigo sob uma marquise, vendo o mundo desabar. Queria muito ter ido ao ensaio da Mangueira, mas, depois de quase duas horas de aguaceiro, desanimei. Terminei indo jantar no Epifania, o japa da Rua Nelson Mandela, que comecei a frequentar durante o Festival do Rio. Não sou muito chegado a chope, mas encarei um saquê e uma cerveja (meio) escura. A noite foi ótima, e mais não conto. De volta a Lizzie, a história (real) se constitui num caso célebre da criminalidade nos EUA. Lizzie Borden foi figura central no duplo assassinato, a machadadas, de seu pai e sua madrasta, em Fall River, Massachussets, em 1892. Embora tenha sido absolvida, o caso, que teve extraordinária cobertura na mídia da época, lhe deu uma projeção sinistra e ela permanece no imaginário e no folclore norte-americanos. Martin Ritt foi um dos diretores que tentaram contar a história, mas ele nunca conseguiu resolver o impasse da falta de provas conclusivas para criar o tipo de drama que lhe interessava. Houve, mesmo assim, filmes e séries, e agora o longa de Craig William Macneill, que busca um novo recorte, a meio caminho entre As Criadas, de Jean Genet, e Mulheres Diabólicas/La Cérémonie, que Claude Chabrol adaptou de Ruth Rendell. Na versão de Macneill, escrita por uma mulher, Bryce Kass, e ambientada na Inglaterra, Lizzie/Chloë Sevigny, tem um affair com a doméstica, Bridget/Kristen Stewart, e a união das duas engendra essa terceira personalidade psicótica que leva ao crime de Lizzie como reação ao patriarcalismo dominante. É interessante, até porque fotografia e música criam/seguram o clima opressivo, mas não muito melhor que isso.