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A utopia da Virada (e os curtas da Kinoforum)

Luiz Carlos Merten

19 de maio de 2019 | 22h53

Fiquei até de madrugada na rua, por conta da Virada, mas confesso que tive minha epifania somente hoje pela manhã. Paralelamente à programação oficial, vi muitas manifestações de rua. Street dancers, capoeiristas. Justamente um grupo de capoeira que se apresentava, por volta do meio-dia, na Praça da República. Um dos caras portava uma camiseta – ‘Sou preto, sou suspeito?’ Outro executava os movimentos com aquela elegância que a capoeira tem. Ritmado pelo berimbau e primeiro com um menino, depois com uma mulher, ele era a própria expressão da nossa identidade cultural, naquilo que a capoeiragem tem de musicalidade, misturando arte marcial, esporte, canto e dança. Por remeter à origem africana, a capoeira já foi perseguida e proibida no Brasil – na Bahia -, tendo inspirado Jorge Amado (Tenda dos Milagres), num romance que Nelson Pereira dos Santos filmou. Fiquei ali olhando aquelas pessoas como se estivessem tocadas pela graça e aí, como num travelling de afastamento, o meu olhar se espalhou ao redor – uma panorâmica – e eu me senti dentro de um filme de Emir Kusturica. Me deu saudade de Gabriel Villela, a quem não encontro há tempos, porque ele também tem essa paixão por Kusturica. As pessoas não eram necessariamente belas – nada de corpos esculpidos, exceto os dos capoeiristas -, mas a beleza estava no ar, na comunhão, no congraçamento democrático que permitia que todos, independentemente de raça, gênero, condição social ou padrão de beleza, pudessem desfrutar da tal joie de vivre. Nos últimos anos, porque a Virada tem batido com Cannes, eu estava longe, fora. Ontem e hoje voltei a sentir essa emoção. Essa cidade tão maltratada apinhada de gente, o Centro tão demonizado – ah, os pobres, o horror, o horror -, tomado pela música e pela arte ao alcance de todos. Vi shows (Caetano e os filhos), teatro (Clovys Torres e seu solo sobre Antonin Artaud) e, claro cinema. Fui, com Orlando Margarido, ao vão livre do Masp para ver São Paulo S.A. com acompanhamento de música ao vivo. Fomos derrotados pelo frio da madrugada e pelo vento, que corria solto naquela área descoberta. Terminei gostando mais dos curtas das Oficinas Kinoforum – São Paulo vista da, e pela, periferia, no Olido. Não sei nem quem fez, mas gostei muito de Joel, de Defina-se e O Segredo das Armas. Em Somos Todos Iguais?, um popular observa que é uma nojeira dois homens se beijando, nisso repetindo o coiso, que disse que o Brasil está aberto para quem quiser vir pegar mulher, mas gay não, porque esse é um país de famílias. O garoto, porém, pergunta – se o hetero pode se beijar, por que eu, por ser gay, não posso? Onde fica o meu direito? O que eu vi/vivi no Centro, nesses dois dias, foi uma utopia. Arte e liberdade, duas coisas que assustam os novos detentores do poder nesse país.

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