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A Terra Prometida

Luiz Carlos Merten

12 Julho 2016 | 16h04

Preciso logo dar conta de que assisti hoje ao imponente Tarzan de David Yates, e minha primeira reação foi de que esse cara fez o filme para mim, ou na expectativa de que alguém como eu o visse. Mas, antes de A Lenda de Tarzan, quero falar de A Terra Prometida. Desde ontem que veio cartazes espalhados pela rua anunciado A Terra Prometida. Imagino que seja alguma nova série. Hoje, a caminho do JK Iguatemi, para ver o David Yates, comecei a divagar, lembrando de outra Terra Prometida, a de Andrzej Wada, acho que de 1974/75. O filme adaptado de Wladislaw Reymond é, em todo caso, anterior a O Homem de Mármore e Sem Anestesias, e bem anterior, quase uma década, a O Maestro e O Homem de Ferro, pelo qual ele ganhou a Palma de Ouro. Não creio que O Homem de Ferro seja o melhor Wajda, mas o Sr. Política, como era/é chamado, foi incensado pela mídia de todo o mundo ao cerrar fileiras com Lech Walesa e o sindicato Solidariedade, contra os fascistas vestidos de vermelho (os stalinistas) na Polônia. No começo dos anos 1980, sopravam novos ventos, podia-se perceber que o mundo ia mudar, mas não quanto. E eu aqui viajando na Terra Prometida. A Polônia, no século 19. Não existe classe média. No alvorecer da industrialização, a polarização é entre os donos do capital e o trabalho. Três amigos, um judeu,um alemão e um polonês, querem criar uma fábrica. Unem-se, depois brigam entre si. Lobos e carneiros – lobos entre eles e em relação à massa espoliada e faminta dos trabalhadores. Fiquei pensando comigo, o mundo realmente mudou, não cabe chorar, mas um dos sintomas dessa mudança é que não se fazem mais filmes como esse. Melhor seria dizer – filmes como esse nem mais são tolerados. Lembro-me das belas imagens do campo, as massas que abandonavam suas terras atraídas pela promessa da industrialização, e os neocapitalistas que sobre elas avançavam, obcecados pela posse. Na cidade, ruas escuras e chaminés fumegantes. Lembro-me que, na época, Wajda foi acusado de antissemitismo. Anos mais tarde, seria preso, por seu apoio ao Solidariedade, como Jafar Panahi no Irã. No final de A Terra Prometida, o polonês, interpretado por um dos atores fetiche do diretor, Daniel Olbryscki, consolida seu poder e apresenta o herdeiro do seu império. Mas, no momento em que ele faz isso, uma pedra rompe a vidraça e vem cair a seus pés, indicando que a luta de classes está apenas começando. Pouco mais de 40 anos depois de A Terra Prometida, querem nos fazer crer – ‘eles’ – que a luta de classes acabou e conceitos como esquerda e direita são superados. Podem ter mudado os rótulos, e mudaram muito, mas como dizia Tancredi ao príncipe Salinas, as coisas têm de mudar para ficar na mesma. Mentira – ficaram piores para os (eternos) explorados. Viajei tudo isso olhando um simples cartaz. Esse post saiu espontâneo, mas é minha homenagem, tardia a Ursula Grosza, a mais brasileira das polonesas, e vive-versa. Soube há cerca de um mês da morte dela, que já ocorreu há certo tempo. Não sabia como abordá-la. Hoje calhou – através de Wajda, a quem amávamos tanto. E vejam como são as coisas. Comentei o post com meu editor, e Bira (Ubiratan Brasl) me informou que A Terra Prometida é a novela da Record que substitui Os Dez Mandamentos. Jesus! Viajei mesmo.