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A teoria da conspiração em Victoria e Abdul

Luiz Carlos Merten

20 de novembro de 2017 | 12h29

Confesso que, no Rio, correndo entre a sucursal do Estado e o Espaço Itaú, na praia de Botafogo, não deixei de fazer as coisas que gosto. Fui ao Lamas, à Tratoria e à roda de samba, no sábado à tarde, na ruinha que liga o Amarelinho à Livraria Cultura, na Senador Dantas. E ainda arranjei tempo para ver, ontem à tarde, Victoria e Abdul. Com tanta coisa rolando na Semana – videoativismo, imagens da resistência, os novos agentes e territórios da produção audiovisual da periferia e da negritude, etc -, ainda estou decantando o longa de Stephen Frears que marca o retorno de Judi Dench à personagem da Rainha Vitória. Queria ter a objetividade de meus colegas de sites – mentira! – que não precisaram de muito tempo para decretar que o filme é ‘menor’, para não dizer medíocre, mero exercício de repetição para o diretor de A Rainha e a grande atriz de Sua Majestade, Mrs. Brown. Sorry, mas não consigo ver o filme assim. Gosto da maneira nada reverente como Frears aborda a realeza, bem diferente dos diretores norte-americanos. A primeira pergunta do médico, no despertar da rainha, é se ela cagou – claro que ele não usa a expressão. Pergunta se ‘obrou’ e, num momento seguinte, com toda a seriedade, Vitória redige uma mensagem para o médico usando o plural majestático para informar que, sim, ‘obramos às 8h30 da manhã’. Esse tipo de precisão faz eco ao anúncio formal de que a rainha morreu às tantas horas – 18h30 – no final. Ah, os protocolos da aristocracia. Victoria e Abdul resgata um personagem desconhecido da história britânica. Somente em 2010, com a publicação de um livro sobre os diários de Abdul, o mundo tomou conhecimento de que ela teve um confidente hindu, em seus últimos anos. E por que ele foi apagado da história? O filme fornece boas razões, mas, na realidade, não creio que seja esse – o camareiro indiano – o interesse de Frears. O filme é sobre a tentativa de impeachment de Vitória, orquestrada pelo trio formado por seu filho, o médico real e o camareiro da rainha, uma espécie de ministro da Casa Civil. Teoria da conspiração – há um complô palaciano, o filho e o médico ‘obram’ para produzir um documento que diz que Vitória está insana e isso leva ao momento absolutamente brilhante em que a rainha desfaz o plano, enquadra o trio, e Frears proporciona outro grande momento de interpretação para Dame Judi. Ela irá para o Oscar? Devia. Mesmo desmontada a operação, o ressentimento do filho – que teve de esperar até quase os 60 para reinar – produz o apagamento histórico do ‘munshi’, e olhem que Vitória, prevendo isso, adverte Abdul de que não poderá defendê-lo da falta de ética na corte britânica. Achei muito interessante – ultimamente ando interessado nessas história de golpe; por que será, hein? -, mas acrescento que deve haver aí uma intenção oculta que ainda não captei. Por que essa história, nesse momento? Tudo bem, a descoberta de Abdul é coisa recente, mas estamos num momento da história em que Elizabeth II se aferra ao poder e não renuncia por nada, impedindo que seu filho, tão velho quanto o de Vitória, ascenda ao trono. Achei curioso, tanto quanto o fato de a rainha descobrir as falhas de caráter de Abdul, e mesmo se sentindo traída não diminuir seu afeto por ele, um muçulmano!, e afeto pelo filho ela, decididamente, não tem. Esse olhar para o outro não é praxe, e menos ainda nas estruturas de poder do Ocidente. Não creio que Victoria e Abdul seja um grande filme, mas me deu material para pensar. Continuo pensando, e isso é bem mais que posso dizer do Frears anterior, Florence.

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