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A surpresa – e tem filme infantil na Aurora!

Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2017 | 12h52

TIRADENTES – Queria ter participado do encontro entre diretor e público desta manhã, mas não deu. Ontem foi por causa do Oscar, hoje porque tinha uma entrevista agendada no programa de Mário Kertész em Salvador e também tinha de fazer rapidamente meu material do dia para o Caderno 2, porque à tarde e à noite tenho filmes que não posso perder, até porque de um deles – Lamparina da Aurora, de Fred Machado, do Maranhão – vou ser o debatedor amanhã. O filme cujo debate gostaria de ter visto é Um Filme de Cinema, de Thiago B. Mendonça. Tenho uma ligação, digamos, afetiva com o Thiago. Ele foi foca do Caderno 2, no tempo em que Evaldo Mocarzel era editor. Era um guri. Virou homem, pai de família, militante em coletivos de teatro e cinema. Thiago não baixou a guarda. Segue atacando os golpistas. O público adora. Na apresentação de Um Filme de Cinema, no palco do Cine-Tenda, ele contou a gênese. Embora feliz por haver vencido a Mostra Aurora no ano passado – com Jovens Infelizes ou O Homem Que Grita não É Um Urso Que Dança -, 2016 foi muito duro, por tudo o que ocorreu no País, o golpe etc e tal. Andava deprimido, pensando no Brasil e em seu futuro. Afinal, com duas filhas pequenas, a maior com 9 anos (atualmente)… Em conversa com Andrea Tonacci, o mítico diretor de Bang-Bang e Blábláblá, nasceu a ideia de um filme infantil, cocriado com as filhas, ou a filha mais velha. Na ‘trama’ de Um Filme de Cinema, a filha de um diretor – Rodrigo, alter ego de Thiago – inspira-se no exemplo do pai e, quando, na escola, a professora divide a turma em grupos para que cada um conte uma história, a menina propõe a realização de um filme. Ideia aceita, ela tromba com o pai, que não quer ceder o equipamento (caro), sob a alegação de que filme não é brincadeira de criança. Brigam, ela emburra, o pai cede, o filme é feito mas causa tumulto na escola. Enfim, não vou contar as peripécias, mas essa experiência de um filme infantil na Aurora me tirou dos trilhos. Thiago assina a direção e o roteiro, mas o filme dentro do filme estrutura-se a partir das perguntas que a menina faz – “Pai, o que é o cinema?” Para a doméstica – “O que você mais gosta?” E à professora – “Qual o seu maior sonho?” O filme é todo ele uma conversa entre o mundo real e o mundo das imagens, que é sempre falso, porque, conforme já nos explicou Ruy Guerra em O Homem Que Matou John Wayne, o que nos é dado ver é sempre uma manipulação, na medida em que o diretor, mesmo de documentário, faz um recorte e exclui o que não quer que a gente veja. A produtora de Thiago chama-se Memória Viva e Um Filme de Cinema inclui imagens que remontam aos primórdios do cinema (Lumière, Méliès) e às comédias de pioneiros como Charles Chaplin, o eterno Carlitos, e Buster Keaton, o homem que nunca ria. Somos informados por vovô de que papai desistiu de ser palhaço porque não conseguia fazer o público rir e, como cineasta, ele também recebe críticas. Fiquei um pouco confuso – até que ponto o referencial do pai impõe-se ao da filha? O balão vermelho que segue a menina… Enfim, a graça de Um Filme de Cinema, como o entendi, é a falta de graça e a precariedade da realização, tudo isso compondo uma utopia – o experimento da garota é premiado – porque feito com honestidade e criatividade. Um Filme de Cinema foi muito aplaudido no final. Depois, enquanto jantava com Luciano Ramos, encontramos o próprio Thiago B. Mendonça. Conversamos sobre o filme dele, sobre o Tonacci e o papo encerrou-se com uma interrogação. Thiago está louco para ver qual será a reação das crianças a seu (meta)filme infantil. Eu confesso que também. Gostei médio, ou confesso que foi o de que menos gostei até agora. É o imaginário do pai, superpondo-se ao da filha? E se é o dela, por que não tem crédito? A falta de graça pode ser um conceito – ninguém consegue fazer rir como Carlitos, como Buster Keaton, como Harold Lloyd -, mas nem por isso me evitou certo constrangimento. Acho linda, de qualquer maneira, a ideia da passagem. Da nova geração começando cedo. Não deixa de ser um retorno à nouvelle vague e uma reação ao Brasil dos velhos no poder, em que até os jovens – no governo, no Legislsativo, no Judiciário – são conservadores pra cacete.