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A sublime loucura de Sean Connery

Luiz Carlos Merten

03 de novembro de 2020 | 10h33

Minha vida de repórter de cinema levou-me a entrevistar personalidades como Steven Spielberg, Woody Allen, Clint Eastwood, Lars Von Trier, Bong Joon-ho, Hong Sangsoo e muitos outros. Por breves que tenham sido esses encontros, alguns foram memoráveis para mim. Quando disse a Woody Allen que sua melhor fase havoa sido com Mia Farrow – seus melhores filmes – e ele concordou, acho que houve sali um momento de franqueza. Estávamos os dois sozinhos, ele prolongou a entrevista um pouco mais – devia estar gostando do papo – e quando se despediu seu ‘Take care’ me pareceu sincero. Por que estou lembrando isso? Por causa de Sean Connery. Entrevistei-o por Armadilha, de Jon Amiel, de 1999, coestrelado por Catherine Zeta-Jones. Não foi uma entrevista individual, mas era um grupo pequeno. Achei-o não apenas arrogante, mas também equivocado, quando nivelou o Amiel por Alfred Hitchcock, não revelando muito apreço pela obra-prima doente do mestre, Marnie. Na época, pensei comigo que poderia ter passado sem essa entrevista. Guardei dele uma lembrança que não foi boa. No imaginário do público, Connery foi e será sempre o melhor 007, com o perdão dos demais, especialmente de Daniel Craig, mas para mim ele foi o intérprete de três ou quatro grandes filmes que me acompanham. O Hitchcock, claro, mas também Sublime Loucura/A Fine Madness, de Irvin Kershner, Ver-te-ei no Inferno/The Molly Maguires, de Martin Ritt, e Robin e Marian, de Richard Lester. Com o Lester fez também Cuba, que foi um desses filmes que sumiram na noite dos tempos. Um mercenário vai treinar as forças do ditador Batista contra Fidel. Reencontra um antigo amor – Brooke Adams. Ecos de Casablanca. Apesar do insucesso do meu único encontro com Connery, admirava-o como ator. O Martin Ritt entrou na minha lista de clássicos. É um dos filmes da minha vida. É o caso de iniciar nova lista para acolher também o Kershner. Connery como Samson Shillitoe em A Fine Madness. É um dos personagens mais encantadores e libertários do cinema dos anos 1960, como o filme, aliás. Samson é poeta, e um ladies man. Um bloqueio criativo o impede de concluir o novo poema. Impulsionado pela mulher, Joanne Woodward, Samson/Connery busca um terapeuta e se envolve com a mulher dele, Jean Seberg. O médico o submete a uma cirurgia revolucionária que antecipa o tratamento Ludovico de A Laranja Mecância. Na verdade, seria algo como uma castração mental de Samson, mas não funciona. Connery é genial no papel.

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