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A série ‘amarela’ dos italianos

Luiz Carlos Merten

12 de setembro de 2015 | 13h22

Citei no outro dia – ontem – Carlos Reichenbach na abertura do meu texto sobre os 75 anos de Brian De Palma para o portal do Estado. Teve uma época em que eu não andava gostando dos filmes de Carlão, mas ele foi sempre muito respeitoso comigo. Acima de eventuais diferenças, dizia que estaríamos sempre unidos – uns poucos eleitos – no culto a Scarface. É o maior De Palma, seguido por… Aqui vacilo. Às vezes, é Os Intocáveis. Outras, Missão Impossível. Volto a Carlão e ao tema do post, o Giallo. A Versátil editou uma caixa dedicada ao gênero que, no cinema e na literatura, designa relatos policiais e de suspense, com um pé no terror. (O que seria do cinema de Dario Argento sem navalha? Nem existiria). A embalagem do Giallo é amarela, como convém, com quatro filmes de Mario Bava, Dario Argento (alguma dúvida?), Sergio Martino e Lucio Fulci. Não sei se Carlão deixou entre seus escritos da internet alguma coisas sobre Fulci e Martino, mas acho que ele iria gostar bastante de O Segredo do Bosque dos Sonhos e O Estranho Vício da Sra. Warden. Bosque dos Sonhos passa-se num lugarejo de Puglia. É onde se refugia Barbara Bouchet, de volta à casa construída pelo pai, que fez fortuna na cidade grande. Ela é bela, sexy. Desperta falatórios. Florinda Bolkan faz a bruxa local. A aldeia está em Pânico porque meninos estão sendo assassinados, sem sinais de abuso sexual. Um jornalista de fora, Tomas Milian, investiga com Barbara. Chegam à mais assombrosa descoberta sobre a identidade de quem está matando. No final, o assassino – preparem-se! – mergulha no abismo, como Lúcifer, o anjo caído. Metafórico, claro, e bem interessante. O Estranho Vício é com Edwige Fenech e George Hilton. Ela, nascida na Argélia, fez carreira na Itália tirando a roupa diante da câmera. Ele, uruguaio, foi astro de spaghetti westerns. Nascido Jorge Hill Acosta y Lara em Montevidéu, adotou o nome de gringo para faturar nos faroestes macarrônicos, como o ítalo-brasileiro Antonio Luiz de Tefé von Hoonholtz também virou Anthony Steffen para empunhar a pistola em Almería e Cinecittà. O Estranho Vício tem mais reviravoltas que a estrada mais cheia de curvas do mundo, seja ela qual for. O estranho vício de Edwige nem é tão estranho. Ela é chegada no sadomasoquismo, sendo perseguida por um sádico a quem se atribuem assassinatos. O furo é mais embaixo e é tudo um plano envolvendo Hilton e… Não vou revelar para não tirar a graça, mas não falta pretensão ao thriller de Sergio Martino, que se abre com uma citação de Freud – o gosto do assassinato está no sangue dos homens. Sinceramente, não sei se o dr. Sigmund disse isso, mas se ele não acreditava, Martino, sim. O cinéfilo é até capaz de pensar que Martino não está no mesmo plano de culto de Argento, Bava e Fulci, mas basta um admirador para que você o veja com outros olhos. Quentin Tarantino curte tanto O Estranho Vício da Sra. Warden que tomou o Dies Irae composto por Nora Orlandi para Martino como referência musical para o personagem de Sidewinder/Michael Madsen em Kill Bill. Na época do lançamento, a crítica caiu matando na Sra. Warden, até por causa do twist final, que chega como culminação de uma série de soluções dramáticas que parecem não fazer o menor sentido (quem mata quem, e por quê). Hoje, a própria essência do culto nasce desses excessos que divertem cinéfilos de carteirinha, como Quentin. A caixa do Giallo tem dois discos. Além dos filmes e trailers, traz um especial sobre os gialli de Argento e Bava. Dessa vez, para o meu gosto pessoal, preferia que fossem sobre Fulci e Martino.