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A São Silvestre!

Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2016 | 11h43

E chegamos ao último dia do ano. Despede-se 2016. Já vai tarde. Tantas mortes, o impeachment de Dilma, the rise of the dark. Gritamos, nós e o cinema brasileiro inteiro – bem, nem todo -, Fora, Temer, mas o senhor em questão está fechando o ano, e posando de estadista. Ouvi dizer que ele conta com a mulher – a recatada e do lar – para suavizar sua imagem e torná-lo popular. Camelot em versão tropical. A ‘nossa’ Jackie, mas será ele o ‘nosso’ Kennedy? Parte da mídia está se esforçando, é bom reconhecer. Mais algumas horas e estaremos em 2017. J´pa viu ao Centro para ver, na República, a São Silvestre. Lina Chamie fez um filme belíssimo, mas quando ouço falar na ‘tradicional corrida’ tenho um troço. Há 27 anos, desde que cheguei a São Paulo, num dezembro, não perco uma. E se h´~a uma coisa que não se mantém é a tradição. Ela começou à noite, encerrando-se em pleno réveillon, na Paulista, e eu me pergunto sempre porque foi para a tarde e, agora, para a manhã. Como a Globo tem os direitos, e não abre mão, já ouvi que ela manipulou para que a corrida não interfira em sua grade. Não duvido que seja isso. Bela tradição que ninguém respeita e vai se adequando aos interesses de quê, exatamente? Mas, enfim, estava lá, na República. Esperamos bem uma meia-hora até que aparecesse a vanguarda feminina. A corrida delas começa antes – 8h40. São 20 minutos de vantagem sobre os homens, que disparam às 9 h. Uma africana, uns 500 metros depois, outra. E mais outros 500, e uma terceira. Como não havia isolamento, ao contrário de anos anteriores, a pista era uma festa, com gente para lá e para cá. E, de repente, ouviram-se as sirenes da polícia motorizada e chegaram os deuses, não do estádio, mas da rua. A vanguarda masculina, os africanos principalmente. Etíopes, quenianos. Correm em bloco, embolados. Nenhum sinal de cansaço. Passadas rítmicas, espaçadas, poderosas. Não dão a impressão de correr, mas de voar. E, com eles, inconfundível com aquele cabelo descolorido, Giovani. Emociono-me sempre. Não posso ver uma prova de corrida sem me lembrar de Jesse Owens. Em Berlim, em 1936, a Olimpíada foi montada para ser uma festa nazista, ariana. E veio aquele negro norte-americano que calou o estádio. É o que absolve Leni Riefenstahl. Olympia deveria celebrar o mito do super-homem ariano, mas Leni soube ver outra coisa. Pauline Kael contava como é impressionante ver as veias palpitantes na testa de Jesse Owens, e aqueles esguios nadadores japoneses, e os saltadores ornamentais em seu voos tão mágicos que não se percebe a nacionalidade. Espero não ser considerado sexista, mas enquanto as mulheres dão a impressão de correr isoladas na São Silvestre, os caras vêm em bloco. Logo depois do pelotão inicial, um grupo de corredores isolados – com brasileiros que integram a elite – e em seguida é como se uma represa se rompesse e correm todos juntos. Homens, mulheres. A beleza da prova. Há os que competem e os que sabem que não vão ganhar e correm pelo prazer de participar e completar a prova. Acho lindo, mas hoje estava um calor do cão. Até nisso, manter a prova à noite, na origem, seria menos sofrido para os atletas, e talvez não desse tanta vantagem aos africanos. Mas quem sou eu para estar dizendo isso? Se digo alguma bobagem, desculpem-me. Voltei para casa e estou escrevendo este post. Já sei que os etíopes Leul e Dawit venceram, com o queniano Kosgei em terceiro e Giovani em quarto. O que me fascina na SS foi o que Lina Chamie viu – uma transcendência, o instante mítico da (auto)superação. Que venham outras, muitas São Silvestres. E que eu ainda veja quantas puder.