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A Rosemary de Richard Gere

Luiz Carlos Merten

28 de dezembro de 2012 | 11h01

No post anterior, disse que não consegui ver ‘O Hobbit’ na quarta-feira. Como estava à deriva no Shopping JK Iguatemi, almocei e aproveitei para ver um filme a que não assistira – ‘A Negociação’, de Nicholas Jarecki. Richard Gere cavou uma indicação para o Globo de Ouro como melhor ator dramático. Está ótimo como o executivo que manipula tudo e todos para vender empresa que teve rombo financeiro tapado numa operação fraudulenta. Só isso já seria suficiente para desacreditá-lo, mas Gere ainda provoca a morte da amante num acidente de carro, do qual tenta se safar. Tim Roth faz o policial que fere a ética e forja evidências para indiciá-lo, recebendo um puxão de orelhas do juiz encarregado do caso. Nada que Jarecki diz sobre a economia do mundo global é novidade. Filmes como ‘Trama Internacional’, de Tom Tykver, e ‘Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme’, de Oliver Stone, já retrataram esse universo. A complexidade do filme, e eu confesso que ‘A Negociação’ me perturbou muito, não vem daí. Richard Gere faz um negociador duro que sabe o que tem de fazer. Tim Roth também acha que sabe, mas se há um canalha nessa história não é o investidor, mas o policial que pensa estar agindo em nome do bem comum. A ginástica de Gere para salvar o jovem afroamericano que o ajudou, e que o policial ameaça sacrificar, lhe vale a admiração eterna da plateia, contra a repulsa que o outro nos provoca. Mas tudo isso é mais ou menos previsível. O que desestabiliza o filme, e o herói, é a presença da mulher. O jovem negro diz uma coisa interessante – Gere compra o mundo com seu dinheiro e ele seria capaz de dizer que é assim que as coisas funcionam. Há uma cena em que Susan Sarandon cobra do marido o cheque de US$ 2 milhões para a sua fundação humanitária. E ela observa – o que são US$ e milhões? Uma ninharia… Ele lembra quando comiam nem me lembro o quê a US$ 2 por cabeça, US$ 3 o buffet inteiro. Gere veio de baixo, Susan parece ter-se esquecido, pois vive bêbada, sempre com o copo na mão. Gere derrota o mundo, mas é finalmente derrotado por suas mulheres. A amante, a filha, a mulher. No final, Susan o engessa, imobiliza. Num certo sentido, ela o chantageia – veja o filme para saber como – e consegue o que outra operação fraudulenta, a de Tim Roth, não conseguiu. Acho que a perturbação que o filme me produziu veio daí. Gustave Coubet tem aquele quadro genial. Uma mulher de pernas abertas. Vamos lá, sem medo da palavra. Uma buceta. A origem do mundo, da vida. Susan Sarandon vira a vagina dentada. Castradora. É a Rosemary de Richard Gere, mas ele, por quem torcemos, será nosso Lula?

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