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A pizza só para quem merecia

Luiz Carlos Merten

05 de março de 2014 | 09h54

Ontem, no jantar, Dib Carneiro e Orlando Margarido comentaram a repercussão, nas redes sociais, da derrota de Leonardo DiCaprio na disputa pelo Oscar. Creio, honestamente, que teria sido um escândalo se ele ganhasse, mas ontem, ao rever 12 Anos de Escravidão, vacilei na cena em que Chiwetel Ejiofor encara a câmera. Pqp! Na hora, Clube de Compras Dallas passou inteiro diante de meus olhos e tive a sensação de que não tinha nenhum momento forte como aquele. Mas volto a ‘Leo’. Do ponto de vista puramente semiológico, sinto que algo está se passando com ele. Os anos passam, DiCaprio mantém a cara de garoto – baby face -, mas ela começa a ficar amarrotada. Tenho sempre a impressão de que ele está virando Mickey Rooney, Deus nos livre, assim como Faustão virou o Peter Lorre. DiCaprio, Brad Pitt, George Clooney são certamente figuras interessantes. Não gosto do Clooney, vocês sabem, que criou aquela persona e a representa o tempo todo, imagino que até quando está c… Mas todos representam novas atitudes dos astros de Hollywood. DiCaprio, mais até que Pitt, representa um novo tipo de astro produtor, aberto a filmes e autores que, potencialmente, arriscam mais. Digo potencialmente porque admiro outras escolhas, mas ele tem sido o grande avalista da fase atual de Martin Scorsese, que não me agrada nem um pouco. Para o meu gosto pessoal, DiCaprio está na hora de mudar (de novo). Não me lembro se ele foi indicado para o Oscar por Prenda-me, Se For Capaz, de Steven Spielberg, mas foi por Diamante de Sangue, de Edward Zwick, e se alguma vez mereceria ganhar foi por esses filmes, especialmente o segundo. Zwick é um diretor narrativo ‘clássico’ – tradicional, mas não convencional. Não me canso de rever filmes como O Último Samurai e Diamante de Sangue, que recuperam o romantismo da grande tradição de aventura de Hollywood. São filmes que passam o tempo todo na TV paga, e se estou zapeando estaciono meu carro na emissora que os exibe. Alguém poderá dizer que gosto, em Diamante de Sangue, da remissão final de DiCaprio, que morre com uma grandeza que não teve em vida. Pode ser, mas isso é Shakespeare (Macbeth) e Joseph Conrad (Lord Jim), que são Bíblias para mim. Cada vez que vejo O Último Samurai dou-me conta de que Zwick deve ter visto Rebelião, o maior de todos os filmes de Masaki Kobayashi, o maior de todos os japoneses. Está lá o embate mítico entre Mifune e Nakadai, o sacrifício pela honra. São duas coisas que viraram obsessões para mim, isso e a presença do herói sofista de Elio Petri no cinema de Michael Mann. Infelizmente, nunca encontrei nem um nem outro para tirar minha dúvida ou descobrir que sou eu, no meu imaginário, e com os elementos de que disponho – minhas ferramentas -, que faço essa leitura. No caso de DiCaprio, existem vários bufões na carreira de Scorsese que poderiam ser os modelos para o trapaceiro de O Lobo de Wall Street – O Rei da Comédia? -, mas não consigo deixar de pensar que a origem do personagem está no ator, naquele cara que DiCaprio interpretou, anos atrás, para Spielberg. Depois da sua trilogia informal sobre o 11 de Setembro, não tenho mais dúvida de que Spielberg virou o maior diretor (autor?) de sua geração em Hollywood. E ele é exigente, aberto ao novo – premiou Abdellatif Kechiche e Amat Escalante como presidente do júri em Cannes, no ano passado. O curioso é que só me dei conta de uma coisa agora. Tão óbvio que me escapava. O Lobo e Trapaça, de David O. Russell, ambos com muitas indicações – e o segundo, mais ainda -, foram os grandes derrotados no Oscar deste ano. Ambos contam histórias de trapaceiros, e trapaças. E se, ao desqualificá-los,  premiando um filme que discute o conceito de propriedade como 12 Anos – nenhum homem, nenhuma nação é propriedade de outro(a) -, a Academia tiver lavrado um conceito, uma declaração de princípios? Não acabou em pizza – só para quem merecia.

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