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A Pietà de Hitchcock (ainda Topázio)

Luiz Carlos Merten

13 de junho de 2019 | 09h40

Ainda não consegui racionalizar muito bem, mas, ao rever Topázio na TV paga, o filme que me veio à mente, de Alfred Hitchcock, foi O Homem Que Sabia Demais, uma história da qual o mestre do suspense gostava tanto que a contou duas vezes – num filme inglês dos anos 1930 e no hollywoodiano dos 50 (com James Stewart e Doris Day). Não gosto particularmente de The Man Who Knew too Much, nenhuma das versões, mesmo reconhecendo que, na segunda, toda a sequência do concerto no Albert Hall, concluindo nos címbalos e no grito desesperado de Doris, é coisa de louco. O Homem carrega na emoção, na intensidade dos conflitos. Topázio pega outro foco, uma frieza quase documentária. Mas o que mais me impressionou, em ambos, foi um detalhe. No Homem, o casal está na feira africana, acho que no Marrocos, o espião disfarçado é baleado e, moribundo, sussurra no ouvido de Stewart a informação que faz com que a mulher e ele sejam alvos de caçada humana, com o filho sequestrado, etc etc. Em Topázio, outro sussurro. O casal de cubanos é torturado, a Pietà segundo Hitchcock, e a mulher, estropiada, mal consegue murmurar, no ouvido de Rico Parra, o nome – Juanita de Córdoba. John Vernon, o ator que faz o papel, fica ereto, o rosto transtornado. Seu mundo ruiu. Acho aquilo de uma beleza, e mais do que isso, de uma tragicidade dilacerante. É só um detalhe, mas fiquei pensando e comecei a lembrar que a obra de HItchcock é permeada desses detalhes. Gritos e sussurros do mestre. E, no Bergman com esse título, tem também uma Pietà.

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