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A ‘pérola’ das Rainhas

Luiz Carlos Merten

06 de junho de 2016 | 09h27

Fui ver ontem Rainhas do Orinoco. O espetáculo estreou quando estava viajando. O amigo Dib Carneiro, que já o viu diversas vezes, só me dizia que é ‘uma pérola’. Só me resta acrescentar – uma joia, uma ourivesaria. Gabriel Vilela tem, feito espetáculos grandes, que preenche com aquele talento especial. Esse é pequeno (no tamanho). Singelo, naif. Não conhecia o texto de Emilio Carballido. Um barco desce o Orinoco com duas coristas. Elas vão para um contrato num puteiro no cu do mundo. Os palavrões fazem parte do universo das personagens, e da peça. Elas cantam, contam histórias, dizem piadas, e cantam de novo. Dizem que não são putas, mas artistas. Não será tudo a mesma coisa? O teatro é bom, mas o ambiente é péssimo, diz uma linha do texto. E, na entrevista que me deu para o Caderno 2 de domingo, Cláudia Abreu lembrou que no começo do século passado as atrizes precisavam de carteirinha de saúde, como as mulheres da vida. Quais Thelma e Louise cucarachas, nossas heroínas vão pelo rio da vida, que vira turbilhão. Descobrem-se à deriva. Gabriel Vilela volta às suas origens, o teatro-circo. A peça começa leve e divertida, todo mundo ri, em cena e na plateia, mas bem no fim nós, os espectadores, percebemos uma diferença. Bate uma interrogação – o que vai ocorrer com essas mulheres? Vem uma tristeza, um silêncio. Walderez de Barros diz um texto lindo. A outra é sua filha, sua amiga, sua companheira, seu tudo. Walderez tem uma longa história no teatro e na TV. Parece uma velhinha cansada, fora de cena. No palco, agiganta-se. E é engraçado, não sei se é a melhor definição, ver a diva desfilar todos aqueles impropérios. Não sei se Gabriel pensou no célebre telefonema de Lula, o ex-presidente Luiz Inácio, mas eu pensei. Walderez domina a cena. Quer dizer, meia cena, porque Luciana Carnieri defende seu espaço como uma leoa. Luciana canta, representa. Tira a blusa, mostra os seios – os mais belos do teatro brasileiro, segundo nossa amiga italiana Francesca Della Monica, que ontem assistiu ao espetáculo com a gente. Morro de vontade de ver Luciana no cinema, liberando aquela energia diante da câmera. Rainhas do Orinoco é simples, ou parece simples, porque na verdade aquela ourivesaria teatral é produto de uma depuração extrema. É preciso toda a trajetória de um Gabriel Vilela para chegar àquela singeleza, àquela perfeição. O visual, a cenografia, as cores, tudo é pensado, tem um sentido. O mariachi de Dagoberto Feliz é uma maravilha. E não é humor pelo humor. Rainhas do Orinoco é uma metáfora sobre a América Latina. A América Nuestra. A trilha é um regalo. ‘Caminito que el tiempo ha borrado/que juntos un dia nos viste passar…’ No sábado, The Cat. no domingo, Las Reinas. O teatro me sorriu no fim de semana.

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