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A Pé Ele não Vai Longe (nem o filme)

Luiz Carlos Merten

29 de dezembro de 2018 | 12h32

Entrevistei Gus Van Sant algumas vezes na minha vida. Duas vezes por telefone, por Drugstore Cowboy e Garotos de Programa, a primeira vez presencialmente, em Veneza, por Até as Vaqueiras Ficam Tristes, e outras duas em Cannes, por Últimos Dias e Mar de Árvores. É um diretor que me desconcerta. Gosto de seus filmes antigos, a fase de Portland, com Drugstore e My Own Private Idaho/Garotos de Programa. Fiquei chocado quando ele clonou Psicose e transformou o filme cultuado de Alfred Hitchcock numa m… despersonalizada. Seus filmes mais experimentais, como Elefante, que ganhou a Palma de Ouro, e Paranoid Park, me deixam frio. Seus filmes mainstream, Gênio Indomável, Encontrando Forrester e Milk – A Voz da Igualdade, são apostas no tema, na história. de certa forma são todos filmes de superação, como A Pé Ele não Vai Longe, que, confesso, não me agradou muito e, por momentos, me irritou. Todos os clichês do filme indie, incluindo os cartuns animados de John Callahan, um artista de Portland, o que, confesso, inicialmente me animou, quando comecei, ontem, a ver o filme no Belas Artes. Como saí entre o decepcionado e o indiferente – mas decepcionado por que? É um típico Gus Van Sant ciclotímico, oscilando entre o yin e o yang -, fui procurar pelas reações dos coleguinhas. Na Folha nem consegui abrir a matéria, porque não sou assinante, mas deu para ler que o autor da crítica estava consternado porque o filme tem sido ignorado na temporada de premiações dos EUA. Ainda tem o Oscar, e torço para que Jonah Hill seja indicado para melhor coadjuvante, mas, tirando o elenco, acho que A Pé está sendo esquecido pelo motivo bastante prosaico de que é ruim e até o que tem de bom, a interpretação, aposta na atração da crítica, e da Academia, pelos deficientes, o que é outra facilidade. As próprias abordagens da crítica são clichês – o artista que ri de si mesmo, abaixo a autocomiseração, etc. Se não fossem as correrias de Callahan com a cadeira e o seu guru, Donnie, o aborrecimento teria sido mortal. Gostei muito mais do remake americano de Intocáveis, por Neil Burger, em que Bryan Cranston está fantástico, mas essa é outra história. Para fechar sobre Gus Van Sant, seu único filme que realmente me interessou, nos últimos anos, foi um que nem teve lançamento nos cinemas, no Brasil. Foi diretamente para o mercado de home video. Mar de Árvores, a floresta dos lamentos de Van Sant, com Mathew McConaughey e Ken Watanabe. Aliás, está aí um aspecto pouco negligenciado na abordagem da obra do cineasta. Van Sant ama as duplas, ou os duplos. Revejam seus filmes, desde os mais antigos, por esse ângulo, e o resultado será… Instigante?

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