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A ‘outra’ Navalha na Carne, na era do rádio

Luiz Carlos Merten

26 de agosto de 2018 | 11h23

Havia me preparado para um programa duplo de teatro ontem, sábado, à noite. Cheguei a comprar, no Sesc 24 de Maio, o ingresso para Navalha na Carne, no Sesc Bom Retiro, às 9. A ideia era assistir antes, às 7, na Rua Guaianazes, a Hotel Tennessee. Cheguei lá e não havia espetáculo, porque o casarão foi alugado para um casamento. E vivam os noivos! Como consequência, meu planejamento de fim de semana ficou comprometido. Queria ver hoje a peça do Folias, talvez veja. Seria um fim de semana mais de teatro que cinema. Essa Navalha na Carne é branca, já que houve há pouco a montagem de uma Navalha na Carne Negra. A tentação é grande de assim definir o trabalho de Gustavo Wabner sobre o texto de Plínio Marcos. O espetáculo nasceu como uma homenagem de Luisa Thiré a sua avó, Tonia Carrero, que há 50 anos batalhou pela liberação da peça – durante o regime cívico-militar – e interpretou a prostituta Neusa Sueli. Tonia, uma dama, fazendo a puta, cuspindo palavrões, gritando que seu bofe ia ter de fazê-la gozar. Havia gente achando que ela não conseguiria. Foi um de seus maiores papeis. De cara, um telão perfila a lendária estrela e sua motivação para interpretar tão singular personagem em sua carreira. O próprio Plínio Marcos, numa afirmação um tanto controversa, diz que o teatro não é a arte do diretor nem do autor, mas do ator. E começa a encenação. Realismo, uma visualização detalhada do quarto da espelunca que Neusa divide com o amante, Vado. Ela toma porrada do seu macho porque não lhe deixou o dinheiro da viração. Mas deixou! Neusa desconfia que foi roubada por Veludo, e chama o viado. Com seus trejeitos e sua afetação, Veludo faz com que a plateia do Sesc Bom Retiro quase se engasgue, de tanto rir. Estereótipo? Mas aí ocorre alguma coisa. O rádio, um personagem secundário, toca uma música brega, que Veludo e Sueli cantam. Num ato de direção, entram as luzes coloridas de um cabaré – todo mundo, Veludo também, vive de ilusão. As luzes do cabaré refletidas na m… Pareceu-me o aspecto mais interessante dessa montagem de Navalha na Carne, essa pequena (mas decisiva) participação do rádio. Na outra Navalha na Carne, a Negra, os atores são melhores, a divina Lucelia Sergio, o rádio é substituído pelo vídeo, com a geração de imagens, a cama vira o único objeto/cenário, e Navalha na Carne ingressa no século 21. Uma reinvenção do texto, com o aprofundamento da questão da representatividade e das relações de sexo e poder, a partir do corpo alienado – desde a escravidão – do negro. Na era do rádio – mas há 50 anos a TV já era uma força no País -, a homenagem meio que força a adesão. Como não reverenciar Tonia? Pessoalmente, gostei de ver Navalha na Carne (Branca) – peguei um dos últimos lugares – mais do que realmente gostei do espetáculo. E Wabner que me desculpe – diretores detestam comparações, mas é um privilégio nosso, do público. A (Navalha na Carne) Negra está sendo meu espetáculo teatral do ano. Não há nem possibilidade de comparação face a uma obra que, aquela sim, transcende.

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