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A nova tragédia do individualista

Luiz Carlos Merten

18 de fevereiro de 2015 | 07h25

PARIS – Fui ver ontem à noite o Clint e estou até agora sob o impacto de American Sniper. Desde que cheguei na França tenho visto nos quiosques chamadas da edição semanal de L’Obs, o novo Nouvel Observauteur. Clint dégaigne, a entrevista exclusiva. Comprei e li antes de entrar na sessão, o que pode ter me influenciado. É o segundo filme que Clint herda de Steven Spielberg. Steven ia fazer o filme adaptado do livro autobiográfico de Chris Kyle. Desistiu, porque seu orçamentou ultrapassava, e muito, os US$ 60 milhões que a Warner destinava à produção. A Warner é parceira de Clint em sua produtora Malpaso. Acionado, Clint ligou para Steven, que lhe desejou boa sorte e, meio de brincadeira, meio de verdade, se ofereceu para ser diretor de segunda unidade. Clint já herdara A Conquista da Honra/Flags of Our Fathers, que também era um projeto de Spielberg. Leio que o filme está sendo o maior sucesso da carreira de Clint como diretor – US$ 350 milhões, somente nos EUA. O diretor credita o sucesso ao equilíbrio entre cenas de ação e intimistas. Entre combates e família. Da maneira como vi o filme, Chris Kyle, o personagem de Bradley Cooper – que é produtor/executivo; ele já era o Chris de Spielberg -, é uma reinvenção do Ethan Edwards de Rastros de Ódio, de John Ford. Mesmo quando se insere no grupo, e ele age em nome do coletivo – só seu combate contra o sniper iraquiano vira uma coisa pessoal -, Chris permanece um individualista. O filme é sua tragédia, como Rastros de Ódio era a de Ethan. O mesmo rigor moral, a mesma sede de vingança, o mesmo ódio ao selvagem. Clint abre o filme com aquele episódio do trailer. O atirador vai disparar contra a mulher e a criança? Mais tarde, retoma a ideia da criança, outra criança, mas a essa altura, ao contrário do controle que exibe para o analista, que lhe cobra o que sente por haver matado 160 pessoas, The Legend está longe de ser uma fortaleza. Está desmoronando – sinal de que é humano. Durante todo o tempo, o olhar dos outros sobre Chris é de reverência pelo herói, e se é verdade que ele salva vidas, no embate decisivo com o atirador inimigo ele coloca seu grupo em situação precária. Não é por acaso que a cena termina com a tempestade no deserto, com o ‘herói’ perdido no meio da areia. Pergunto-me se a influência, o conceito de Ethan/Rastros de Ódio, já estava no roteiro original de Spielberg/Jason Hall, ou se foi uma das mudanças que Clint fez? Spielberg, afinal, também ama o clássico de Ford, e até reproduziu seu final em Guerra dos Mundos. Mas, ao desmoronar, Chris invoca, para mim, outro grande. O Otto Preminger que, nos anos 1960, fez a crítica do embate entre os homens e as instituições – Igreja, Justiça, Exército, Revolução etc. É como se, ao maior clássico de Hollywood nos anos 1950 – Rastros de Ódio -, ele somasse o maior nos anos 1960, A Primeira Vitória/In Harm’s Way. Curiosidade ou coincidência, ambos são filmes com John Wayne, que faz Ethan Edwards e Rockwell Torrey. Fiquei muito, muito impactado com American Sniper. Estou redigindo esse texto meio rápido, porque deixo Paris hoje à noite – de volta! – e quero fazer muita coisa ainda, inclusive ver, na Pinacothèque, a exposição de Klimt. E não resisto a postar. Nem voltei para o Brasil e já sonho em estar de volta em Paris nos dias 4 e 5 de março. Outdoors espalhados ontem pela cidade anunciam que nesses dois dias Marion Cotillard, a sublime, estará num desses grandes estádios numa nova versão de Joana d’Arc na Fogueira, o oratório de Claudel e Honegger, com orquestra e coro. Joana d’Arc na Fogueira foi filmado por Roberto Rossellini com Ingrid Bergman, nos anos 1950. Nos 40, ela já interpretara a personagem em Hollywood, para Victor Fleming. Meu Deus! Isso é coisa que vale o caminho de São Tiago!