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A Netflix no Oscar e a reabilitação de um Kubrick incompreendido

Luiz Carlos Merten

13 de janeiro de 2020 | 22h59

Pode até ser que a Netflix, no limite, não leve muita coisa no Oscar, mas neste primeiro momento a plataforma de streaming deve estar comemorando suas 19 indicações. 19! Dez por O Irlandês, seis por História de Um Casamento e três por Dois Papas, mais outras que me enumerou o Bira (Uniratan Brasil). Até achei o Martin Scorsese melhorzinho que outros trabalhos recentes do diretor, mas não consigo me amarrar no filme. Scorsese, que já deu cara à Nova Hollywood, hoje personifica a Velha. Gosto do Noah Baumbach, História de Um Casamento, mas meu preferido é o Fernando Meirelles. Me amarrei no diálogo de Bento XVI e (Jorge) Bergoglio, antes que o segundo virasse papa (Francisco), resolvendo suas diferenças por meio da palavra. No princípio era o Verbo, e só os falsos profetas, que duvidam do Senhor, ou fazem leituras equivocadas, preferem resolver os conflitos por meio do trabuco. Tenho uma entrevista, que ainda não publiquei, com o Rodrigo Sierra, que assina a fotografia de O Irlandês. Conversamos sobre os planos-sequências, em especial dois – o inicial, até chegar ao caquético Robert De Niro, no asilo, e o do assassinato na barbearia, com a dupla de assassinos chegando pela escada do centro comercial. O interesse maior da entrevista com o Rodrigo está no fato de que tudo, em O Irlandês, foi filmado com várias câmeras para captar imagens de 360 graus dos personagens, para que a equipe de make-up pudesse dispor desse material para o processo de envelhecimento digital dos atores. Havia-me esquecido de salvar esse texto para publicação, o que faço agora. Comecei na redação do Estado, parei para uma reunião. Estou vindo da rua, do jantar. Comprei duas revistas na banca do Conjunto Nacional, na Av. Paulista. A Cineaste do Winter 2019, com Eddie Murphy, Dolemite, na capa e estudos sobre O Traidor, de Marco Bellocchio, e O Retrato de Uma Jovem em Chamas, de Céline Sciamma. A revista também privilegia um filme que já lamentei haver perdido – no Festival do Rio – aqui no blog. Takashi Miike fez mais de 100 filmes e só uma história de amor – First Love, que Cineaste põe nas nuvens e ainda espero ver. O amor, segundo Miike, soma violência e comédia – uma questão de estilo. A outra revista é a Sight and Sound de dezembro, com Eyes Wide Shut no capa e a chamada – por que a obra-prima incompreendida de Kubrick, De Olhos bem Fechados, é mais relevante que nunca? SS também traça o perfil de Andrew Onwubolu, isto é, Rapman, mostrando como, a partir do YouTube, o rapper, armado com uma câmera (e sua visão de mundo) fez o filme Blue Story – nunca tinha ouvido falar -, que tomou a indústria de assalto, like a storm. Como uma tempestade, uma tormenta. Fiquei curiosíssimo, porque no meu imaginário promete mais da sempre bem-vinda revolta dos excluídos. A revista também disseca Sucession, que acaba de ganhar o Globo de Ouro, e publica entrevista com Brian Cox. Há dois anos ele protagonizou a melhor versão de Churchill, mas nem foi indicado e quem levou o Oscar foi Gary Oldman. Mas isso é Hollywood, e todos sabemos disso.

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