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A Musical

Luiz Carlos Merten

16 de março de 2014 | 15h41

Olá! Meu último post tem quase uma semana. Foi escrito no aeroporto Tom Jobim, ex-Galeão, no Rio, a caminho de Los Angeles e da junket de Capitão América 2. Ao chegar, Flávia Guerra me mostrou a denúncia da Folha. Os jornalistas que assistiram ao filme de José Eduardo Belmonte receberam o per diem em dinheiro da distribuidora. Declinei, mas acho muita graça que a concorrência, ao fazer a ‘denúncia’, diga desconhecer a prática. Há-hã, vão enganando seus leitores, vão. Além de tudo é um jornal mal-informado, única justificativa para esse prurido de virgem no bordel. De volta a Los Angeles e ao Capitão América, gostei do filme dos irmãos Russo, e até me emocionei com a solidão não só do herói, mas a de seu amigo transformado no soldado do inverno. Parecem personagens de David Cronenberg, transformados em aberrações ao olhos dos semelhantes (e aos próprios…). Conversei sobre isso com o produtor Kevin Feige, todo-poderoso presidente da Marvel. O primeiro Capitão América, com direção de Joe Johnston, era meio anacrônico, como todos os filmes do diretor. O herói enfrentava os nazistas, mas a ação vinha até o presente, depois houve Os Vingadores e, agora com os Russo, a ação torna-se contemporânea, o que permite à dupla de cineastas restaurar o clima de paranoia dos thrillers de Alan J. Pakula nos anos 1970, que foram suas referências (A Trama e Todos os Homens do Presidente, com direito a Robert Redford na pele do vilão). Vamos ter tempo de falar sobre isso. Amanhã volto ao Rio, para Rio 2, e na quinta, de novo, para Noé (e Russell Crowe). Cheguei a São Paulo na sexta de manhã e à tarde já estava no jornal, fazendo o material do dia. Ontem fui ver Elis – A Musical, adorei o ‘A’ – e na sequência jantei com os amigos na Esperanza. Gabriel Villela, Francesca della Monica – que passa mais uma temporada no Brasil; ela também não gostou de A Grande Beleza, de seu amigo Paolo Sorrentino, e exceto pela beleza das cenas concorda comigo que Paolo não entendeu nada de Roma e, menos ainda, da doce vida romana -, Thiago Lacerda, Vanessa Loes (gravidíssima) e, claro, Cláudio Fontana, Dib Carneiro, o César, o Ivan. Foi uma noite animada, regada a vinho e agora cá estou na redação do Estado, postando. Havia perdido, no festival de filmes equatorianos, o Pescador de Sebastian Cordero, que vi ontem à tarde (e me encantou). Só estou em dúvida se revejo hoje o Miyazaki (Vidas ao Vento) ou Refém da Paixão, de Jason Reitman, que faz a releitura do melodrama dos anos 1950. Reitman abre mão do cinismo dos longas que lhe deram projeção, mas subverte o velho melodrama ao impregnar seu filme de um erotismo de alta voltagem. Nada é explícito, ao contrário de Lars Von Trier, mas a sugestão é tão forte que Kate Winslet e Josh Brolin, com a mão na massa, têm o mais intenso orgasmo recente da tela, e isso aos olhos do filho dela, que é introduzido no mistério da sexualidade feminina ao assistir à metamorfose da própria mãe. Existem ali implicações freudianas bem complexas. Não sei mais o que dizer de Kate Winslet. Poderosa! Mas sei o que dizer de Laila Garin, a Elis de Denis Carvalho. Poderosa! Laila foi preparada vocalmente por Francesca della Monica, a maga de todas as vozes, que também devolveu a Marina (a cantora) seu instrumento. Não sou muito chegado em  musicais, vocês sabem, mas Elis, a Pimentinha, que eu vi no Clube do Guri, em Porto, é um de meus amores. Miriam Muniz, que dirigiu Falso Brilhante, quando a entrevistei por Alô? – a comédia de Mara Mourão -, me contou os bastidores do show mítico. Queria poder voltar no tempo, ser jovem de novo para ver e reviver aquela emoção. ‘Os sonhos mais lindos sonhei…’ Continuo sonhando. Todo mundo diz – Laila canta bem! E ela canta, mas a voz e a emoção são ferramentas a serviço de sua interpretação. Ela é uma senhora atriz. Incorpora Elis como um cavalo no candomblé. A cena da entrevista, quase no fim, é um excepcional momento de interpretação. Que que é aquilo quando ela conta que sua voz salvou a vida do filho? E o filho, os filhos com Ronaldo Bôscoli e César Camargo Mariano, estavam na plateia, com Jair Rodrigues. Não consigo nem imaginar a emoção que deve ter sido ouvir aquilo.Tinha ido sem muita expectativa. Homem de pouca fé! O segredo da arte, e da vida, é se deixar surpreender. Gostei demais de Cláudio Lins, que faz César Camargo. A cena da ruptura, quando ele canta, é dilacerante. É diferente, mas me reportou ao policial de Alemão, quando Marcelo Melo Jr, que faz Carlinhos, grita que já provocou a morte do irmão e prefere morrer a deixar que matem a mulher que ama. Os caras são machos pra caralho, mas conseguem passar toda a sensibilidade ferida, a fragilidade e a vulnerabilidade dos sentimentos. E o Belmonte, que pode ter filmes melhores, mas nunca foi melhor ‘diretor’ que aqui, me disse que a frase sobre o irmão foi uma invenção do Marcelo, na hora. Não estava no gibi, perdão, no script. De onde vêm esses caras com essa gana? Elis – A Musical não entra na seara das drogas. Gosto de quase tudo, menos do desfecho, após a entrevista. É para ser ‘pra cima’, mas me pareceu meio anticlimax. Queria outra coisa, mas não sei o que é. Em compensação, o Fino da Bossa (Ícaro Silva, que faz Jair Rodrigues, é 10), o encontro com Tom Jobim (Leo Diniz, tu é demais) e O Bêbado e a Equilibrista me lavaram a alma. Elis cantou pros militares. A raiva revolve a alma, o palco e explode em Deus lhe Pague! Elis, a maior cantora do Brasil, tinha uma inimiga, e era Elis, a insegura. Insisto. Na vida, a gente só tem de ter coragem pra se deixar surpreender. Laila, Cláudio, o cara que faz Lenny Dale, o próprio Denis Carvalho. A Musical! Quero ver de novo.

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