As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A mulher que amou demais, ou O culpado é o mordomo

Luiz Carlos Merten

04 Julho 2016 | 12h10

Volta e meia me acusam de revelar detalhes importantes das tramas, ou pior ainda – antecipar o final dos filmes. É que, na realidade, cinema é, sempre foi, para mim, muito mais que uma história. Já vi Psicose dezenas de vezes e continuo pulando na poltrona ou sofá exatamente nas mesmas cenas. Se me pautasse pela história não veria nenhuma paixão de Cristo (Ele morre crucificado!) nem Hamlet (Tupi or not Tupi). Mas é que hoje em dia as pessoas perderam o gosto pela fruição dos filmes. Se a cena demora mais um pouco na tela ou não está fazendo avançar, especificamente, a trama, neguinho já saca do celular e vai conferir mensagem. Se dá para acompanhar a história, chega. O resto – a fruição, que é tudo – vira supérfluo. É o que está matando o cinema. Por isso, vou logo dizendo. Esse post é para quem já viu Marguerite. Se você ainda não viu o longa de Xavier Giannoli com a sublime Catherine Frot, é bom deixar para ler depois, porque vou revelar detalhes importantes. Fui rever ontem Marguerite no CineSala com meu amigo Dib Carneiro. Ele jura que vimos a versão teatral com Marília Pêra. Devo ter apagado da lembrança, mas posso apostar que Marília deve ter calcado no histrionismo, como seu público gosta, ou gostava. Estou louco para ver a versão de Stephen Frears com Meryl Streep e, ao mesmo tempo, morro de medo. Acho que os dois não vão resistir e vão cair no cabotinismo. Uma divindade como Meryl fazendo uma artista medíocre… Só se for como farsa. Mas estou curioso. Como Greta Garbo disse a Jean Cocteau ao chegar para a sessão de A Bela e a Fera – ‘Étonne moi!’ Meryl é bem capaz de me surpreender, e maravilhar, e no fundo é o que espero. Giannoli, e Catherine Frot. Havia visto o filme, fora do Brasil, e feito uma leitura. Revi, e fiz outra. Lembram-se de Cidadão Kane? A mulher de Charles Foster quer cantar ópera. É péssima. Ele força o amigo, crítico musical, a dizer o que pensa em seu jornal e, quando surge a crítica destruindo a cantora, Kane o demite. São famosas as cenas – a encenação teatral e a câmera que sobe para filmar as expressões dos operadores de luz e cenários. Lá em cima. Se Giannoli pensou em Cidadão Kane ao contar a história de Marguerite, a baronesa que pensa que é artista, faz o caminho inverso, e desce com ela aos porões do palco. O máximo que Marguerite chegará é aos pés de verdadeiros artistas (é como ela os enxerga). Não é a única inversão do diretor. Lembram-se de Crepúsculo dos Deuses, claro. O ex-marido cineasta de Norma Desmond vira seu mordomo. Na ficção de Marguerite – inspirada na história real da socialite Florence Foster Jenkins -, o mordomo segue a via inversa e é o fotógrafo oficial de madame. Documenta todas as suas fantasiosas apresentações, desde a primeira. Pensamos, talvez, inicialmente, que ele faz isso por devoção. Não, e Giannoli nos dá a písta, como num policial. O filme abre-se com um globo ocular e, depois, o diretor mostra repetidas vezes o olho do fotógrafo quando vai bater as ‘chapas’- e isso demorarava, naquele tempo. Não eram instantâneos, como hoje. Marguerite pode não ser a artista que sonha, mas é generosa e com certeza ama o marido. Dona do dinheiro, é generosa com todos. O mordomo, que a documenta, é um artista. O artista não é generoso. É cruel. Ele chega a dizer, num diálogo, que espera vender as fotos, e caro, quando ela morrer. Refere-se a Marguerite como sem noção. E, no final, quando o marido tenta chegar a tempo, impedindo que… (vejam o filme), ele não impede, porque, como também disse antes, para concluir sua ‘obra’, tem de filmar a morte da heroína. Se fosse um policial, o mordomo seria culpado. O assassino. Mas é um filme de amor, e não apenas à arte. Marguerite, traída, recupera o amor do marido, mas é tarde – para ele, também. A amante do marido, a cantora de ópera, que começa rindo, o professor, todos têm um olhar a princípio zombeteiro sobre ela. Mas esse olhar muda. Vira de compaixão, tristeza, deem o nome que quiserem, pelo patetismo dessa mulher que amou demais – a arte que lhe deu as costas, o marido, que, por uma vez, querendo chegar a tempo, chegou tarde demais. Tudo e todos traíram Marguerite. Só o olho do mordomo mantém-se inexorável. Rever Marguerite abriu meus olhos. Estou pensando seriamente em colocar o filme entre meus melhores do ano.