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A mulher do tricô

Luiz Carlos Merten

27 de junho de 2016 | 12h50

Volto a Ouro Preto e às imagens do carnaval de 1965 que Rita Marques, gerente do Cedoc da Rede Globo, mostrou ao participar do painel sobre novas perspectivas de preservação de material audiovisual de TV, no Cine OP. Não eram imagens aleatórias. Captadas em película por um núcleo comandado por Roberto Farias, foram editadas – originalmente – de forma a compor um curta sobre a festa no quadro das comemorações do 4º centenário da cidade chamada de maravilhosa. Euforia e ressaca. As imagens do pós-carnaval tinham um clima de Lira do Delírio, que Walter Lima Jr. realizou na década de 1970. Na época, lembro-me de não haver gostado do filme. Fiquei impactado quando o revi, décadas mais tarde, acho que no Festival do Rio. Desde então, Lira do Delírio passou a ser o ‘meu’ Walter Lima Jr., mais que Menino de Engenho, cuja cena final, a despedida do garoto que parte no trem, permanece antológica no meu imaginário. Lira do Delírio demorou anos para ser feito e só estreou após a morte prematura de Anecy, que morreu daquela forma trágica, ao cair no poço de um elevador. O filme é o anti-carnaval, ou sobre a vida como um carnaval trágico. A morte da atriz somou às imagens e hoje é difícil não ver a Lira como algo premonitório e sombrio. Mas quero falar do carnaval do Rio filtrado pelo Jornal Nacional, o que a Rita mostrou. Havia, naquele tempo, meados dos anos 1960, uma personagem folclórica, mas que não conhecia – a mulher do tricô. Ela se pendurava na base de um poste e ficava vendo os desfiles do Rio, e tricotando. Não faço a menor ideia de que quem era essa figura e nem o filme restaurado dá conta disso, mas a imagem ficou comigo. Tenho pensado nessa mulher, construído uma história para ela. Coisa mais insólita – vendo o carnaval e tricotando, imagino que lã. Que hábito era aquele, no Rio 40 graus? O cinema tem dessas coisas. Certas imagens agregam ao mistério dos filmes. Por menos que goste de Limite, de Mário Peixoto, não deixo de reconhecer a força do plano com a mulher que estende (oferece?) suas mãos algemadas. Em Limite, aquilo integra uma dramaturgia na qual não me integro. Naquelas imagens do carnaval, a mulher do tricô passa como um fantasma que, tenho de admitir, me assombrou. Não paro de pensar nela.

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