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A morte de Ricardo Miranda, diretor do belo ‘Paixão e Virtude’

Luiz Carlos Merten

28 de março de 2014 | 13h26

São duas coisas diferentes. Fui ver ontem Vênus de Vison, a montagem de Hector Babenco da peça de David Ives, e estava louco para escrever um post sobre o que vi, comparando com o filme de Roman Polanski com a mulher dele, Emmanuelle Seigner. Acho que o filme de Polanski, Venus à la Fourrure, foi o grande injustiçado de Cannes, no ano passado. O júri de Steven Spielberg superou minha expectativa, mas, ao invés de A Grande Beleza, um mau (Paolo) Sorrentino – apesar do Oscar -, eu teria premiado a Vênus de Polanski. É o melhor filme do diretor em anos, o que para mim inclui O Escritor Fantasma e O Pianista (sim!). Logicamente que qualquer comparação será depreciativa para a montagem brasileira e por isso a evito (agora), embora não me furte a dizer que fiquei chocado com o que ocorreu no Teatro Vivo. O filme de Polanski abre-se genialmente, vocês vão ver. A montagem de Babenco é precedida pelo esquete de um humorista que faz propaganda da Vivo. Achei um horror. O conceito, nem falo do cara. Isso só pode ser ideia de diretoria de marketing. Detesto a Vivo, o Oi, a Tim – detesto celulares. Essas coisas só reforçam meu desagrado, que alguns chamarão de preconceito. Mas gente, estou escrevendo rapidamente sobre Vênus porque estava tentando convencer meu editor a me dar espaço para falar sobre Tiradentes em São Paulo, e em especial sobre Paixão e Virtude, o belo filme de Ricardo Miranda que foi um dos meus preferidos na mostra mineira, neste ano. Estou me sentindo culpado por não estar dando a Tiradentes o espaço que merece, no jornal e no blog. Mas está sendo uma semana singularmente corrida. Posso ter minhass restrições, mas Tiradentes e a Mostra Aurora são importantes demais para passar despercibidas. Gostei pontualmente de alguns programa da Mostra Aurora, a começar pelo vencedor, A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa. Meus favoritos estiveram em mostras paralelas – Paixão e Virttude, livre escrever em imagens do texto de Gustave Flaubert, A Gente, de Aly Muritiba, e Amador, de Cristiano Burlan. Estava pleiteando espaço e me liga a Ana D’Angelo para me dar a notícia. Ricardo Miranda, que deveria vir a São Paulo para a exibição do filme dele no domingo, no Cinesesc, morreu. Como assim? De enfarte, esta manhã, ou esta madrugada. Confesso que fiquei arrasado. Conhecia Ricardo de vista e ele montou filmes de Glauber, Paulo César Saraceni, Arthur Omar e outros autores destacados (como não saber disso?), mas somente em janeiro, em Tiradentes, posso dizer que o conheci de fato. Sentamo-nos para conversar sobre o filme dele, sobre seu conceito de cinema. Achei-o um diretor muito exigente, original e criativo. Disse, e era verdade, que teria o máximo prazer em fazer matéria(s) com ele para ajudar a promover Paixão e Virtude. Não deu tempo. Ricardo foi-se sem ter tido, ou tendo tido somente em parte o reconhecimento que merece (merecia). O artista vai, a obra fica. Estou em pleno fechamento, com matérias (um monte) para fazer. Prometo voltar a Paixão e Virtude. O problema – domingo não estarei aqui. Vou a Porto Alegre. Que coisa. De repente, minha sexta-feira se toldou.

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