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A Milionária, para completar o díptico sobre Shaw

Luiz Carlos Merten

08 de setembro de 2019 | 15h20

Têm sido dias bem intensos. Na quinta, completei o díptico de George Bernard Shaw que o Círculo dos Atores apresenta no Teatro da Aliança Francesa. No fim de semana anterior, havia visto A Profissão da Senhora Warren, direção de Marco Antônio Pâmio, com Clara Carvalho no papel título. Dessa vez foi a vez de A Milionária, que inspirou o filme de Anthony Asquith com Sophia Loren e Peter Sellers. Shaw é um dramaturgo mordaz e claro que não sou eu o primeiro a dizê-lo. Ninguém, como ele, no teatro de seu tempo – e talvez até hoje -, analisou a importância do dinheiro nas relações humanas e sociais. Vivie não apenas descobre a profissão de mamãe – a senhora Warren é puta -, como também que ela não vai abrir mão de seus rendimentos, porque, além de tudo, gosta do que faz. A suprema ironia do texto é que Vivie, rompendo com a mãe, transforma-se numa fria mulher de (outros) negócios, mais dura que a senhora Warren, que é uma puta de bom coração. Havia gostado da mise-en-scène, aquilo que os franceses chamam de ‘désuet’, um tantinho de desatualização ou anacronismo, transparente no conceito e nas interpretações, mas que servia muito bem ao texto (e ao espetáculo). Comparativamente, e para permanecer no francês, A Milionária é muito mais ‘loufoque’ – louca, no sentido de solta – e o primeiro ato passa a galope, num humor que Chris Couto, a protagonista, vencedora do Shell, e o diretor Thiago Ledier esgrimem com extrema competência. Perguntava-me se iam conseguir manter o ritmo, mas na verdade estava surpreso com a própria estrutura do texto, porque o roteiro do filme difere bastante do original. Na versão de Asquith, Sophia, a milionária Epifânia, acha que o dinheiro pode comprar tudo, mas descobre que o doutor anglo-indiano Sellers leva muito a sério seu amor e seus princípios, não colocando nenhum dos dois à venda. Na peça, é a mesma coisa, mas o médico surge só lá pelo terço final, enquanto Sellers é coprotagonista – e brilha tanto como ‘indiano’ que não vacilo em afirmar que Blake Edwards, com certeza, valeu-se da experiência de A Milionária para escalar o ator para seus hits, a série da Pantera Cor de Rosa, em que ele faz Clouseau, e Um Convidado bem Trapalhão, como Hrundi Bakshi, o corneteiro indiano do remake de Gunga Din, que arromba a festa de um produtor de Hollywood. O díptico é uma homenagem do Círculo de Atores a Shaw, cujos 70 anos de morte se completam em 2 de novembro do ano que vem, e a data será lembrada por uma extensa programação na Europa. Nas duas apresentações, tanto de Senhora Warren quanto de A Milionária, alguém sempre informa que o Círculo já foi convidado a se apresentar em Portugal e um ciclo de leituras deve ocorrer aqui no Brasil. Há também um documentário, My Atonishing Self – Gabriel Byrne on George Bernard Shaw, com direção de Gerry Hoban e participações de Ralph Fiennes, Gemma Atheton e (claro) Gabriel Byrne, a que se pode assistir simplesmente pesquisando no Google e clicando em ‘Watch’. Adorei.

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