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A melancolia em Villeneuve, ou como Blade Runner 2049 contém (e supera) Mãe!

Luiz Carlos Merten

30 de setembro de 2017 | 09h46

Corri tanto ontem que não tive tempo de voltar a Blade Runner 2049, após a liberaçã do embargo às críticas à nova fantasia científica de Denis Villeneuve. Assistimos, um pequeno grupo, ao filme na cabine da Sony, quinta à tarde. A sessão, prevista para as 3, começou tarde e, com as 2h40 de duração, saímos de lá depois das 6. Um final de tarde chuvoso, trânsito caótico, parecia o prolongamento da metrópole decadentista da ficção. Gosto do cinema de Villeneuve, mas não particularmente de A Chegada, que foi sua primeira ficção científica. Ao deixar a cabine, nem troquei as tradicionais impressões superficiais com Isabela Boscov e Alberto Sadovski, ambos entusiastas da mãe de Darren Aronofsky. Cito o outro filme porque acho fácil lançar pontes entre o novo Blade Runner e Mãe!, e cada vez que faço isso gosto menos do apocalipse, segundo Aronofsky, e me toca o verdadeiro livro das revelações, no Villeneuve. Blade Runner, o de Ridley Scott, de 1981, já era uma paráfrase bíblica. O replicante Rutger Hauer cravava o prego na própria mão – a crucificação? – e se sacrificava no desfecho, virando pomba, como o Espírito Santo, e mostrando que as máquinas podem até não sonhar com carneiros elétricos, mas têm alma – ideia retomada por Michael Gray na série Transformers. Há um novo sacrifício em Blade Runner 2049, há a busca por uma criança que representa o milagre – nascida de andróide com humano -, há o cientista, louco como o artista. Blade Runner pode muito bem ser Mãe!, visto de outro ângulo. Quando entrevistei Villeneuve, por telefone, meio às escuras – tendo visto apenas 25 minutos de seu footage -, terminei fazendo perguntas genéricas. Uma delas foi sobre a nova trilha. Ele falou como era importante resgatar a melancolia na trilha de Vangelis. Citou duas ou três a palavra, que em inglês parece que fica aqui ainda melodiosa – ‘melânchólia’. Agora, pensando no filme dele, fica claro para mim que o tema de Blade Runner 2049 – talvez o tema de todo o cinema de Denis Villeneuve – pode muito ser esse. A melancolia por uma humanidade que se corrompeu – massificou, brutalizou, robotizou – na luta por poder e que, de alguma forma, sonha com um renascimento. Havia a dúvida de que Deckard/Harrison Ford fosse replicante em Blade Runner, com aquele unicórnio de papel. Há, agora, a dúvida de que K/Ryan Gosling seja humano em Blade Runner 2049. Que seja ele o milagre. O encontro de K com Hiam Abbass impõe limite ao sonho e, ao mesmo tempo, kubrickianamente, marca o encontro entre os dois universos, o macro e o micro, preparando K para o que tem de fazer. A história de amor com a holografia possui a beleza triste – a melancolia – que integra todo o filme. Não, Villeneuve não me decepcionou. As cenas no refúgio de Deckard – as holografias de Elvis Presley, Frank Sinatra… O homem, com sua arte, pode ser sublime. Não o poeta Javier Bardem. Depois dos irmãos Coen, e do Oscar, Javier acabou. Louco de carteirinha. Tudo, no Villeneuve, me leva ao Aronofsky, e o primeiro é melhor. Gostaria de voltar a falar com ele sobre isso. E também sobre Lars Von Trier. Melancolia…

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