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A mais poderosa das meninas, e não é que Charlize recupera sua carreira?

Luiz Carlos Merten

03 de setembro de 2017 | 07h37

Fiz ontem um programa duplo e emendei Dupla Explosiva com Atômica.Vi os dois à tarde, no PlayArte Marabá, o que significa dizer – em versões dubladas. Dupla Explosiva tem censura de 14 anos e Atômica, 16. Pergunto-me se a restrição virá das cenas de violência do primeiro e das de violência, mais sexo (lesbianismo), do segundo. Talvez não seja nada disso, mas os palavrões. Hollywood cada vez mais usa ‘fuck’, ‘motherfucker’, etc e as palavras não eram traduzidas nas legendas. Agora, na dublagem, estão sendo incorporadas. Espiões com licença para matar não devem ser gentlemen na realidade – uma fantasia alimentada por 007 na fase Sean Connery, ou Roger Moore. Há muito tempo não via uma boca tão suja nas telas como a de Salma Hayek, que faz a mulher de Samuel L. Jackson, o meia dupla explosiva. A outra metade fica por conta de Ryan Reynolds, no seu melhor estilo de olhar de cachorrinho. O filme de Patrick Hughes mostra Ryan como guarda-costas de Samuel, o hitman (assassino) que vai depor contra o sanguinário presidente da Bielorrússia num tribunal internacional, e quem faz o papel é Gary Oldman, no seu conhecido estilo de maluco. Era um bom ator, mas agora viciou nesse tipo de personagem, que representa no automático. Confesso que me diverti médio, porque o filme, com algum talento, consegue subverter os próprios clichês para virar uma… comédia romântica violenta. Tudo o que os ‘heróis’ fazem é por amor – Samuel, para tirar Salma da cadeia e Ryan para reconquistar a ex-amada, a quem credita a desgraceira que virou sua vida, mas claro que ela não tem nada a ver com isso. Cheguei a me emocionar com duas ou três cenas de ‘casais’, embora a dublagem não tenha ajudado muito. Vou rever o filme com legendas, para ver se soa menos agressivo aos meus ouvidos. Quanto a Atômica, tenho de confessar que, surpreendentemente, gostei – e bastante. Não botava fé no longa de David Leitch – pesquisei e desubri que é ex-dublê -, e nem sabia do que se tratava, exceto, vagamente, que a heroína vem de uma graphic novel, que nunca li. Meu desânimo inicial vinha da atriz. Gostava de Charlize Theron e espero que não passe por preconceito dizer que a achava um assombro – loira e sensível – no cinema de James Gray. Na minha primeira entrevista com ela, em Cannes, foi Charlize quem me deu a chave, dizendo que James era louco por um filme italiano, Rocco and His Brothers – e ó, céus, esqueci A Cidade Perdida de Z na minha lista (provisória) de dez mais. Depois, Charlize ficou feia e virou aquele ‘monstro’ para ganhar o Oscar. A maldição do prêmio… Como a de Halle Berry, outra absurda vencedora da prêmio da Academia, a carreira dela desandou e Charlize andava à deriva. O melhor que vinha fazendo eram as pubs de perfume. Entrei no Atômica com o pé atrás, mas rapidinho a Charlize e o diretor me ganharam. Berlim Oriental, a queda do Muro e, nesse quadro, a implacável caçada a um agente duplo e a um microchip com revelações sobre agentes que podem abalar o mundo da espionagem. Charlize bate e arrebenta. E ela vai parar na cama com a (frágil) agente francesa por dever de ofício (conseguir informações) ou por amor? A própria Charlize conta a história e o filme rola como um flash-back revelando que nada é o que parece e que tanto James McAvoy como ela surfam – com que objetivos? – nesse mundo podre que surge dos escombros do comunismo. No final, Charlize recupera sua vida de volta, mas não digo como para evitar spoiler. Pelo menos para mim, não é a só a personagem. Charlize também recupera sua carreira, indo além da ‘fisicalidade’ para criar uma Atômica com densidade emocional. Gostei, e nessa fase de meninas poderosas nenhuma é mais que ela.

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