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A lua azul do Recife

Luiz Carlos Merten

01 de agosto de 2015 | 11h31

REECIFE – Tem chovido, mas as noites andam gloriosas com a chamada lua azul, a segunda lua cheia no mesmo mês. Você não precisa ser lobisomem para ser afetado pela luas. Se ela afeta as marés, por que não a natureza humana, se somos feitos de água? Voltei ontem ao Cais do Sertão para levar meu amigo Dib Carneiro e de novo – pela terceira vez! – assisti ao admirável curta de Marcelo Gomes. O museu é coisa de Primeiríssimo Mundo, um deslumbramento. Mas o curta! Um dia inteiro no sertão, das 6 da manhã à meia-noite, sintetizado em 16 preciosos minutos. Criado para um espaço específico do museu, o curta provoca a imersão da gente em imagens e sons que tudo ocupam, a tela curva e imensa, o chão. Não sei se, projetado em condições, digamos normais, numa tela retangular de cinema, teria o mesmo efeito, mas gostaria que isso ocorresse para poder colocar Sertão – 24 Horas entre os meus melhores filmes do ano. Toda a sensibilidade de Marcelo está naqueles 16 minutos. São imagens e sons que me inflamam. Os sanfoneiros, os garotos de patins na estrada e aquele outro, o menino loirinho que olha sério e duro para a câmera. Um plano longo. Onde Marcelo arranjou aquela criança? Há uma parte de Terra dos Homens em que Saint-Exupéry viaja de trem e olha para um casal com um filho. Marido e mulher espelham o resultado da dura luta pela vida, mas a criança é bela e pura, e Saint-Ex, com aquela sua poesia, viaja pensando no que poderia ser esse garoto num mundo que lhe permitisse desenvolver todo o seu potencial. Penso a mesma coisa sempre que vejo o curta de Marcelo. Estão para se completar 20 anos, tomando-se como base o lançamento de Carlota Joaquina em novembro de 1995, e eu tenho, para mim, que continua sendo de Marcelo o maior filme desde o início da Retomada, Cinema, Aspirinas e Urubus. Não gosto de tudo o que ele já fez, mas gosto muito de algumas coisas, com a mesma intensidade com que amo essa cidade, que possui uma vibe especial. Espero que essa pegada recifense, tão forte nos cinemas de Cláudio Assis, cujo novo filme vai a Brasília, e Gabriel Mascaro, cujo novo filme também vai a Veneza, esteja no palco em que a Cênicas Companhia de Repertório vai reencenar o massacre do Carandiru, sintetizado, no texto do Dib, em dez poderosos monólogos. Desde a primeira e melhor montagem, de Gabriel Villela, já assisti a algumas recriações de Salmo 91 – em Montevidéu, em Salvador, agora no Recife. O texto está ganhando uma versão em inglês. Quem sabe terei de vê-lo um dia off-Broadway? Hoje, oito da noite, um novo espaço vai se abrir no Recife e todos aqueles personagens vão ganhar vida, novamente. Dadá, Veio Valdo, Veronique, Zizi, Charuto, Nego Preto, Zé da Casa Verde… Merda, e que seja um belo espetáculo.

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