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A ilha toda cabe numa escola. Numa sala de aula?

Luiz Carlos Merten

03 de setembro de 2015 | 23h47

Lembrava-me que Eddie Redmayne havia recebido o Oscar de melhor ator por seu papel como Stephen Hawking e não creio que tenha gostado muito. Como o pior ator (por O Destino de Júpiter) pode ser o melhor (por A Teoria de Tudo)? Não me lembrava, juro, da melhor atriz. Tive de pesquisar – Julianne Moore, por Para Sempre Alice. E por que essa preocupação extemporânea com a vencedora do prêmio da Academia? Havia gostado muito do filme cubano Venecia, de Kiki Alvarez, que concorreu e foi premiado em Gramado. Mas tive um choque ao assistir no outro dia a Numa Escola de Havana. O longa de Ernesto Daranas foi indicado por Cuba para concorrer a uma vaga no Oscar. Não foi selecionado. Maldita Academia. Amei o filme. Cuba cabe inteira na sala de aula em que dois outsiders – o garoto carente e a professora indesejável -, sem nenhum discurso sobre a ilha e o regime dos Castro, nos dizem mais sobre a situação do país, e seu futuro, do que páginas e páginas da imprensa escrita. Estamos em setembro, a quatro meses do final do ano. Dois terços da temporada já se foram. Numa Escola de Havana e outro filme latino, o peruano Casadentro, de Joana Lombardi, dificilmente deixarão de integrar minha lista de dez mais de 2015. Dois filmes sobre idosas. A matriarca que vive com sua cachorra e a doméstica, no longa da filha de Ricardo Lombardi, e a velha professora que formou gerações, mas cujo discurso humanitário ficou obsoleto face às necessidades de ‘mercado’. Até em Cuba, uma nova geração começa a pensar em termos de eficiência e funcionalidade. O garoto filho de mãe drogada é baderneiro. É mais fácil sumir com ele do que lhe dar uma oportunidade. Numa Escola sequer foi selecionado pela Academia, e num ano em que teria tudo a ver ter um filme cubano entre os finalistas do Oscar. Anos atrás, Central do Brasil concorreu no Oscar de filme estrangeiro e Fernanda Montenegro foi indicada para melhor atriz pelo filme de Walter Salles. A atriz cubana que faz a maestra, Alina Rodriguez, nem deve ter entrado nas deliberações da Academia, mas ela é muito melhor do que as indicadas e a vencedora do Oscar deste ano. E fiquei pensando nos extraordinários atores e atrizes que jamais tiveram ou terão uma chance no prêmio da Academia. Alina morreu de câncer há umas duas semanas, em agosto. Descobri, pesquisando, que era mais popular em Cuba como atriz de TV que de cinema. É maravilhosa. O garoto Armando Valdés Freire é outra preciosidade. As cenas do moleque com a namoradinha são lindas. Numa Escola de Havana estreou hoje na cidade. Só o que posso pedir é que deem uma chance ao filme. Vejam! E quem sabe vocês não vão gostar tanto quanto eu?