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A ilha de Arturo (ou dos amores proibidos?)

Luiz Carlos Merten

17 de novembro de 2019 | 23h08

Há duas ou três semanas, desde que vi o livro na gôndola de uma livraria, ainda durante a Mostra, vinha pensando em escrever, não propriamente sobre A Ilha de Arturo, mas sobre a adaptação de Damiano Damiani, de 1962, que no Brasil se chamou A Ilha dos Amores Proibidos. Elsa Morante foi casada com Alberto Moravia e, nos anos 1960 e 70, teve seu momento de grande prestígio. Adaptaram-na Damiani e Luigi Comencini – La Storia, de 1986, com Claudia Cardinale. Mais recentemente, como destaca Sérgio Augusto em seu texto no Aliás, Literatura deste domingo, virou a inspiradora confessa de Elena Ferrante. Sergio Augusto pergunta-se se estará havendo um risorgimento da literatura italiana, pelo menos no Brasil? É uma pergunta que faz todo sentido neste momento em que está para começar – na terça, 19, no Auditório Ibirapuera – o 14.º Festival de Cinema Italiano. Já tivemos a 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, agora o festival começa sob o signo de Marco Bellocchio e seu Traditore. Por mais que o cinema de ação de Hollywood tenha formatado meu imaginário, sou cria do cinema italiano – dos melodramas de Luchino Visconti e das tragicomédias de Dino Risi. No começo dos 60, com 15 anos, e já me tentando passar por 18 – o cinema francês, sueco, italiano que queria ver era quase sempre proibido, ou ‘impróprio’ -, era frequentador assíduo do Cine Rex, no Centro de Porto Alegre. Muita aula matei no Júlio de Castilhos para ir ao cinema. Assisti à estreia de Damiani com o policial O Batom, em que Pietro Germi investiga bonitão (Pierre Brice) que seduziu garota de menor e o inspetor descobre que, no passado, o tipo sem nenhum caráter já se aproveitou de uma garota paralítica. Não sei se hoje um filme daqueles seria possível – o choque do final, quando Damiani contrapõe o sorriso cínico do belo Brice à jovem que avança com dificuldade para a câmera, amparando-se nas muletas. Damiani fez depois O Sicário, A Ilha dos Amores Proibidos e, na sequência, em 1963, filmou o marido da Morante, Moravia – La Noia, Vidas Vazias. Com a maldade na alma, ou talvez simplesmente lúcida, Bette Davis, que havia feito o filme, disse que mais tedioso que tentar atuar nele havia sido ver o resultado, depois. Damiani seguiu ziguezagueante – o erótico/fantástico A Feiticeira do Amor -, acertou no spaghetti western (Gringo/Quien Sabe?) -, voltou a tropeçar com O Dia da Coruja e Por Amor ou Vingança, até iniciar com Franco Nero, em Confissões de Um Comissário de Polícia a Um Procurador da República, sua fase mais ‘política’, que prosseguiu com Só Resta Esquecer. Naquela época discutíamos, nós, os jovens críticos de esquerda, se Damiani, Elio Petri, Costa-Gavras – Francesco Rosi já era outro compartimento – faziam um cinema reformista, numa fase em que o sonho era ser revolucionário. Em 1975, com o assassinato de Pier-Paolo Pasolini, e 76, a morte de Visconti, algo se passou no cinema italiano, o início de uma crise que coincidiu com o avanço do terrorismo e o desmoronamento da esquerda, tudo isso culminando com a crise da República, que foi ‘sequestrada’ pela Mani Pulite e pela direita. (Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.) Damiani despirocou e foi fazer não importa o quê no cinema de gênero – Amityville II e algum Trinity. Perdeu a credibilidade, mas até onde me lembro eu gostava dos jogos de adolescentes da Isola di Arturo, em que Vanni De Maigret faz o rito de passagem numa ilha da baía de Nápoles, conhecendo o sexo e a violência até tomar coragem para partir, e também de Gringo, com seus títulos alternativos de Quem Sabe? e Uma Bala para o General. Contemporâneo de Os Profissionais, de Richard Brooks, com o qual compartilha a ambiência no México revolucionário, coloca dois outsiders (Lou Castel e Gian-Maria Volontè, como ‘Il Chuncho’) em rota contra o general rebelde a quem fornecem armas, mas que, no limite, terão de combater para promover a reforma agrária prometida aos campesinos. Estou viajando nas lembranças. Sabia que escrever esse post faria isso comigo. L’Isola, o livro, ganhou o Strega, um prêmio literário importante. L’Isola, o filme, não ficou atrás e venceu a Concha de Ouro no Festival de San Sebastián. No YouTube, encontram-se o trailer e o final, que revi com emoção.

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