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A história de um resistente

Luiz Carlos Merten

29 de julho de 2014 | 09h02

Sílvio Tendler evoluiu muito, fisicamente, desde o problema de medula que o deixou tetraplégico em 2011. Mas permanece na cadeira de rodas. Foi assim que chegou ontem à Praça Cívica do Memorial para um encontro com o público. A homenagem, propriamente dita, a entrega do troféu, será amanhã à noite, no encerramento do Festival Latino-Americano. me emociona muito uma coisa que ele já havia dito no Recife, ao receber sua Calunga de Ouro de homenageado. Sua negociação com Deus foi para que Ele mantivesse a saúde mental e a palavra. E Sílvio acrescenta – ‘Os movimentos a gente dá um jeito’. A urgência o tem levado a filmar muito, mais do que em qualquer outro momento de sua carreira. Como ele conta, era perfeccionista. Levou mais de dois anos para fazer Os Anos JK e Jango. Agora, trabalha na urgência, mas sem descuidar da linguagem, que é tão importante no documentário como na ficção, outra frase sua. Sílvio Tendler é um sobrevivente de si mesmo. Continua fazendo filmes necessários, e belíssimos. Gostei muito de ter visto Militares da Democracia – Os Militares Que Disseram não. E me lembrei, na hora, de uma frase de Helena Ignez no palco do Cine Odeon, numa Première Brasil, há dois ou três anos, citando o nome do general, e agradecendo, por ele haver avisado a ela e a Rogério Sganzerla de que seriam presos, o que os levou ao exílio em Londres. Militares da resistência. Era um capítulo da história que ainda faltava contar, e Sílvio o fez. Isso nunca me fará esquecer, em Estado de Sítio, de Costa-Gavras, a aula de tortura que Yves Montand, como Dan Mitrione, dá aos militares, à sombra da bandeira do Brasil. Maria Rita Kehl fala, no documentário, da criatividade do mal. Dessa capacidade que o homem tem de inventar novas formas de humilhar e brutalizar seu semelhante. Mas sempre existe gente decente, que vale reverenciar. O choro silencioso daqueles homens me caiu como um raio. Sílvio Tendler faz agora dois novos documentários, e um deles é o Poema Sujo, sobre o exílio do poeta Ferreira Gullar.

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