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Cinema italiano vai à guerra

Luiz Carlos Merten

03 de março de 2014 | 12h56

Fiz uma página de DVDs para o Caderno 2 de hoje, com Mary Poppins – a edição de colecionador, pegando carona no próximo lançamento de Walt nos Bastidores de Mary Poppins -, A Grande Guerra e dois de Eric Rohmer que a 2001 está vendendo como ofertas, Minha Noite com Ela e O Joelho de Claire. Citei o livro sobre Rohmer, do Antoine de Baecque, que comprei em Paris, mas precisei pesquisar na rede o nome do coautor. Tive um choque. E não é que acaba de sair na França o livro de memórias de meu amado Dino Risi, intitulado Mes Monstres? Como não vi isso nas livrarias? De volta a Grande Guerra, lembro, no texto, que a comédia, ou melhor, a tragicomédia de Mario Monicelli dividiu com De Crápula a Herói, de Roberto Rossellini, o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1959. Dois filmes de guerra, um passado na 1.ª (o de Monicelli), o outro na 2.ª (o de Rossellini) e ambos mais aparentados que parecem, porque mostram anti-heróis que se redimem ao morrer, anonimamente, com grandeza. Vittorio De Sica, em seu maior papel, é infiltrado pelos nazistas numa prisão. Por sua semelhança com o general Della Rovere, seus captores esperam que ele consiga informações essenciais e De Sica, um trapaceiro, pela primeira vez recebendo o respeito e a admiração dos homens, prefere morrer como o general a trair os novos companheiros. Alberto Sordi e Vittorio Gassman passam a guerra tentando evitar missões perigosas. Para os companheiros de pelotão, são covardes e desertores, mas também eles preferem morrer anonimamente a delatar os companheiros que os desprezam – e vão continuar desprezando mesmo após a morte, em A Grande Guerra. Pelo espaço exíguo que tinha no jornal,  não pude acrescentar o que vou escrever aqui. Por volta de 1960 – entre 1959 e 62 ou 63 -, a guerra voltou muito forte, como tema, na produção italiana. Federico Fellini e Michelangelo Antonioni estavam redimensionando seu realismo interior em A Doce Vida e na trilogia da solidão e da incomunicabilidade, que começou com A Aventura. Luchino Visconti abordavas as migrações internas em Rocco, mas havia, paralelasmente a tudo isso, um número muito grande de filmes que discutiam a herança da guerra, das guerras. Verão Violento, de Valerio Zurlini; A Noite do Massacre, de Florestano Vancini; A Derradeira Missão, de Gianni Puccini; Retorno ao Lar, de Luigi Comencini; O Corcunda de Roma, de Carlo Lizzani; Duas Mulheres, de Vittorio De Sica etc. Tudo isso e mais os filmes de Monicelli e Rossellini, e o Bandido Giuliano, de Francesco Rosi, que reconstituía o célebre massacre de Portella della Ginestra, após a 2.ª Guerra, quando o lendário Salvatore e seu grupo promoveram a chacina de trabalhadores reunidos para o 1.º de Maio, no quadro das disputas regionais de poder na Sicília. Uma coalizão comunista vencera as eleições e até hoje há controvérsia sobre os motivos de Giuliano, se teria agido a soldo da Máfia e dos grandes proprietários. Talvez esse retorno à guerra, como tema, tivesse valor de advertência. A Itália, que se reerguera com o aporte econômico do Plano Marshall, se aburguesava, mas a tensão social estava longe de ser resolvida e os diretores lembravam a aliança da Democracia Cristã com os comunistas para derrotar o fascismo. Iniciava-se uma década de radicalização política, ao fim da qual o fascio voltaria como força política. O cinema antecipava a história, com H. Não eram iniciativas isoladas. Conscientemente ou não, configuravam um movimento, uma tendência.

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