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A Golondrina, afeto contra a barbárie

Luiz Carlos Merten

04 de maio de 2019 | 09h24

Orlando Margarido me havia exortado a ver, pela militância, A Golondrina. Fui, gostei. Tem tudon a ver com meu post anterior sobre a peça de Dib Carneiro, Depois Daquelas Viagem, e a versão integral de Angels in América. Homofobia, afetos, ressentimentos. Viver para lembrar, e lembrar para viver. Uma professora de canto recebe a visita de um jovem que quer que ela o treine para cantar uma música – A Golondrina – num memorial dedicado à sua mãe. Não é bem isso. O fio da história, quando desenrolado, revela que o filho de Amélia, a protagonista – chamava-se Dani -, foi morto num ataque a um bar de gays em Orlando. Ramón, o coprotagonista, não é quem quem diz ser. Uma frase – ‘Amar é sentir como nossa a dor dos outros.’ Tem muito a ver com outra frase, em Entardecer, o longa de Laszlo Nemes. ‘Coisas belas servem para esconder o horror do mundo.’ Permitam-me tergiversar. No começo dos anos 1960, assisti, em Porto Alegre, a um filme com Lilli Palmer – Adorável Júlia. Ela faz uma atriz. Um dia, após a performance no teatro, Júlia chega ao camarim. Está apaixonada pelo jovem ator da companhia – se estou bem lembrado. Diz que foi a melhor interpretação de sua vida, que nunca sentiu tanto a personagem, emocionou-se. Seu manager e diretor, não sem uma ponta de ciúme, retruca que ela confundiu tudo, deixou-se levar pela emoção piegas, estava uma merda. Lembrei-me disso porque, numa cena de A Golondrina – estava na primeira fila -, me pareceu ver o brilho de uma lágrima no olho da atriz Tânia Bondezan. Gabriel Villela, nosso mestre do barroco mineiro, encarna o paradoxo porque é brechtiano de carteirinha. Proíbe seus atores de se deixarem levar pelas emoções. Por mais intensa, emocionante, dramática que seja a cena, seu elenco tem de manter o distanciamento. Fiquei em dúvida se Tânia Bondezan chorava ou como fingidora, no sentido de Fernando Pessoa, fingia ser lágrima a lágrima de verdade que brilhava em seu olho. Guillem Clua é o autor do texto, muito bem escrito. A mãe arrepende-se de não haver dito ao filho o que ele talvez quisesse ter ouvido ao lhe fazer uma confissão íntima. Ramón vai se desnudando – a alma – até revelar quem é, e para quem é o memorial no qual vai cantar. Dois atores, apenas. Tânia e Luciano Andrey. Ele parece um Felipe Camargo mais jovem. Gostei muito. Realismo tradicional – naturalismo? – do diretor Gabriel Fontes Paiva. Cenário único, funcional. A movimentação cênica – uma coreografia precisa. Palavras não ditas, palavras repetidas geram embates até físicos. E quando as palavras não significam nada? ‘Te amo tanto que quero morrer antes para não te perder.’ Tergiverso, de novo. Na peça, à maneira de François Truffaut, o amor se alimenta do embate entre o gesto impulsivo e a palavra consciente. Na hora H, Dani tem um gesto impulsivo que encerra todo o sentido do sentimento – contra a barbárie – que percorre a encenação. Eu, que ando numa fase de buscar John Ford em tudo o que é bom, ou de que gosto, reencontrei meu mestre. Quanto custam os pequenos heroísmos do cotidiano? Os sacrifícios? Avengers… Pois é. Não é preciso militância para se entregawr, de corpo e alma, ao espetáculo do Nair Bello.