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Festival do Rio (1)/A gentileza de Chico, artista brasileiro

Luiz Carlos Merten

02 Outubro 2015 | 09h45

RIO – Cá estou, desde ontem. Cheguei para o festival e fico durante toda a realização do evento, até 14. Milton Gonçalves pronunciou as palavras mágicas – ‘Está aberta a temporada da cinefilia carioca’ – e veio o Chico de Miguel Faria Jr. Antes, o próprio diretor fez a apresentação do filme. Lembrou que, pela terceira vez, estava abrindo o festival, depois de O Xangô de Baker Street e Vinicius. Chico não prestigiou a sessão. Entendi como uma gentileza dele com Miguel. O filme já é uma celebração, ajudando a iluminar uma figura mítica da cultura (e da resistência) brasileiras. Se Chico, além da tela, estivesse de corpo presente, a sessão teria virado um caos e, certamente, não haveria para ninguém, muito menos para o diretor. Como lembrou Walkiria Barbosa na abertura, Chico Buarque de Hollanda – o Chico – foi uma referência para as pessoas de sua, da nossa, geração. Acho Miguel Faria Jr. um autor interessante, pois ele ‘é’ um autor. Lá no começo, com filmes como Pedro Diabo ama Rosa Meia-Noite e Pecado Mortal, ele fazia um cinema autoral, radical. Contava histórias de marginalidade e família, que, para ele, eram a mesma coisa, e as contava de forma progressiva, dramática, mas não convencional. Seu cinema avançava por cenas que eram sequências isoladas, tratadas como tal pela câmera. O tom era dado pela ruptura brusca. Não creio que fossem filmes bons, bons de verdade, mas eram ousados, como estilo e temas. Não obtinham ressonância de público. E aí Miguel foi mudando. Provocou escândalo em Gramado com o sexo de O Homem Célebre e criou em República dos Assassinos, que adaptou de Aguinaldo Silva, a cena da travesti, genialmente interpretada por Anselmo Vasconcelos. Foi ficando um diretor mais narrativo, preocupado com as histórias. Tenho a impressão de que o filme de Miguel Faria Jr. de que menos gosto é Stelinha, como qual ele ganhou todos os prêmios de Gramado em 1990, no pós-Collor. Ele também adaptou Jô Soares e fez do seu Sherlock Holmes abrasileirado um belo personagem, o Xangô de Baker Street. Biografou Vinicius de Morais, quando Susana, sua mulher e filha do poeta, diplomata e compositor era viva. Durante muito tempo, não sei se ainda é, Vinicius foi o documentário recordista de público no País. E eu gostava do filme, mesmo achando ‘ruins’ as dramatizações de Camila Morgado, que criavam uma insatisfatória intervenção ficcional. Também não gostei muito da parte recitada de Chico: Artista Brasileiro, com os textos lidos por Marília Pêra. Mas é uma restrição menor. Chico revela o personagem como nunca vi. Chico reflete como, nascido numa família sólida de intelectuais – filho de Sérgio Buarque de Hollanda -, não estava preparado para o sucesso de A Banda, mas sua alegria, no final, quando faz uma descoberta e acha que a música talvez tenha sido a ponte para um personagem que se tornou obsessivo em sua vida – o irmão alemão -, me pareceu genuinamente emocionante. Com Marieta Severo, ele formou durante muito tempo um casal também mítico. O relato sobre como se conheceram é coisa de literatura – de cinema? – e Chico comenta a falta que ela ainda lhe faz, como interlocutora que foi – de sua obra, não apenas da vida. Marieta era a primeira leitora, a primeira ouvinte. De novo fiquei tocado. Lutamos tanto por democracia, na época da ditadura. Ela ainda é imperfeita, mas creio, como Chico, que o Brasil mudou, e foi para melhor. Quando ele fala dos anos duros – da Censura -, lembra do apoio da classe média e até de setores populares ao ‘Ame-o ou deixe-o’. Sempre penso sobre isso. O PT comprou sua base aliada no Congresso – é o que se lê todo dia – e o resultado disso foi a queda da mortalidade infantil. Se foi preciso comprar – remember Daniel Day-Lewis em Lincoln, de Steven Spielberg, o que ele diz sobre a democracia -, eu fico aqui soterrado, emocional e eticamente. Não deveria ser assim, mas então teria sido melhor manter as coisas e deixar que mais esses milhões de crianças tivessem morrido, como sempre morreram? Nada disso é dito no filme, mas saí com essas questões. A beleza do filme, o suspense? – está na persona do irmão alemão. Estrago a surpresa se disser que ele aparece? Mas é de um jeito inesperado e muito interessante. Gostei do Chico filme. Ele é muito engraçado. E faz parte da nossa, da minha memória afetiva. Adorei a história contada por Bethânia – ao ouvir Olhos nos Olhos, Mãe Menininha do Gantois disse que não poderia ser composição de um homem, por entender tanto as mulheres – e o próprio Chico reflete que, como artista, é mulher, é gay, é trabalhador. Só assim consegue entender e dar voz ao outro. Terminei a noite enchendo a cara, sorry, no Lamas, com minha amiga Kika Freire, que dirigiu Pulsões, a peça de Dib Carneiro. Foi uma noite de muitas viagens – no tempo, na lembrança, na imaginação. Chico diz que a lembrança das coisas é sempre impregnada pela imaginação. Isso explica sua música, sua poesia, sua literatura. Modestamente, impregna meu blog. Quantas vezes não tenho a sensação de que as coisas de que lembro são como gosto/quero me lembrar?